Terceira característica das Escrituras: Necessidade

23-10-2011 16:38

A necessidade das Escrituras pode ser definida assim: dizer que as Escrituras são necessárias significa dizer que a Bíblia é necessária para conhecer o evangelho, para conservar a vida espiritual e para conhecer a vontade de Deus, mas não que seja necessária para saber que Deus existe ou para saber algo sobre o caráter e sobre as leis morais de Deus.

A. A Bíblia é necessária para conhecer o evangelho

Em Romanos 10.13-17, Paulo diz:
Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? [...] E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.

Essa declaração aponta para a seguinte linha de raciocínio: (1) primeiramente supõe que o homem precisa invocar o nome do Senhor para ser salvo. (Nos textos paulinos em geral, bem como nesse contexto específico [ver v. 9], “Senhor” se refere ao Senhor Jesus Cristo.) (2) As pessoas só podem invocar o nome de Cristo se crêem nele (ou seja, que ele é um Salvador digno de ser invocado e que atenderá aqueles que o invocarem). (3) As pessoas não podem crer em Cristo a menos que tenham ouvido falar dele. (4) Não ouvirão falar de Cristo a menos que alguém lhes fale sobre Cristo (alguém que “pregue”). (5) A conclusão é que a fé salvadora vem pelo ouvir (ou seja, ouvir a mensagem do evangelho), e esse ouvir a mensagem do evangelho vem pela pregação de Cristo. Aparentemente, a implicação é que sem ouvir a pregação do evangelho de Cristo, ninguém pode ser salvo.

B. A Bíblia é necessária para sustentar a fé espiritual

Diz Jesus em Mateus 4.4 (citando Dt 8.3): “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. Aqui Jesus indica que nossa vida espiritual é sustentada pela porção diária da Palavra de Deus, assim como nossa vida física é sustentada pela porção diária de alimento físico. Negligenciar a leitura regular da Palavra de Deus é tão prejudicial à saúde da nossa alma quanto o é à saúde do nosso corpo negligenciar o alimento físico.

C. A Bíblia é necessária para o conhecimento seguro da vontade de Deus

Abaixo se argumentará que todas as pessoas nascidas na terra têm algum conhecimento da vontade de Deus por intermédio da sua consciência. Mas esse conhecimento é muitas vezes indistinto e não pode proporcionar certeza. Na verdade, se não existisse a Palavra escrita de Deus, não poderíamos alcançar a certeza da vontade de Deus por nenhum outro meio, fosse consciência, conselhos de outras pessoas, testemunho íntimo do Espírito Santo, mudanças das circunstâncias ou o uso da razão e do bom senso santificados.

D. Mas a Bíblia não é necessária para saber que Deus existe

E as pessoas que não lêem a Bíblia? Será que podem obter algum conhecimento de Deus? Podem conhecer algo sobre as leis de Deus? Sim, mesmo sem a Bíblia é possível algum conhecimento de Deus, ainda que não seja conhecimento absolutamente seguro.
As pessoas podem obter o conhecimento de que Deus existe e de alguns dos seus atributos, simplesmente pela observação de si mesmas e do mundo que as cerca. Diz Davi: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). Quem olha para o céu vê as provas do infinito poder, da infinita sabedoria e mesmo da infinita beleza de Deus; observa um majestoso testemunho da glória de Deus.

E. Além disso, a Bíblia não é necessária para conhecer algo sobre o caráter e sobre as leis morais de Deus

Paulo, em Romanos 1, mostra que até os descrentes que não têm nenhum registro escrito das leis de Deus mesmo assim têm na sua consciência alguma compreensão das exigências morais de Deus. Discorrendo sobre uma longa lista de pecados (“inveja, homicídio, contenda, dolo...”), Paulo fala sobre os ímpios que os praticam: “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” (Rm 1.32). Os ímpios sabem que o seu pecado é errado, pelo menos na maior parte dos casos.

 

Grudem, Wayne; Teologia Sistemática; Edições Vida Nova; São Paulo