Pureza e Unidade da Igreja

29-10-2011 17:51

A. Igrejas mais puras e menos puras

No capítulo anterior vimos que existem “igrejas verdadeiras” e “falsas igrejas”. Neste capítulo é necessário aprofundar a discussão: há igrejas mais puras e menos puras.

Tal fato fica evidente quando se faz uma breve comparação entre as epístolas de Paulo. Quando olhamos para Filipenses ou para 1Tessalonicenses achamos prova da grande alegria de Paulo com essas igrejas e a relativa falta de problemas doutrinários importantes e de problemas morais (veja Fp 1.3-11; 4.10-16; 1Ts 1.2-10; 3.6-10; 2Ts 1.3-4; 2.13; cf. 2Co 8.1-5). Por outro lado, havia todo tipo de problemas morais e doutrinários sérios nas igrejas da Galácia (Gl 1.6-9; 3.1-5) e em Corinto (1Co 3.1-4; 4.18-21; 5.1-2, 6; 6.1-8; 11.17-22; 14.20-23; 15.12; 2Co 1.23-2.11; 11.3-5, 12-15; 12.20-13.10). Outros exemplos poderiam ser dados, mas deve ficar claro que entre igrejas verdadeiras existem igrejas mais puras e menos puras. Isso pode ser representado pela figura 45.1.

 

B. Definições de pureza e unidade

Podemos definir pureza da igreja da seguinte maneira: pureza da igreja é o seu grau de isenção de doutrina e de conduta errôneas e o seu grau de conformidade com a vontade de Deus revelada à igreja.

Como veremos na discussão adiante, é correto orar e trabalhar pela pureza maior da igreja. Mas pureza não pode ser a nossa única preocupação, senão os cristãos terão a tendência de separar-se em pequeninos grupos de cristãos muito “puros” e tenderão a excluir qualquer pessoa que mostre o menor desvio de doutrina ou de conduta. Portanto, o Novo Testamento também fala com freqüência sobre a necessidade de lutar pela unidade da igreja visível. Isso pode ser definido da seguinte maneira: unidade da igreja é o seu grau de isenção de divisão entre os verdadeiros cristãos.

 

C. Sinais de uma igreja mais pura

Entre os fatores que tornam uma igreja “mais pura” encontram-se:

1.  Doutrina bíblica (ou pregação correta da Palavra)

2.  Uso adequado dos sacramentos (ou ordenanças)

3.  Aplicação correta da disciplina eclesiástica

4.  Adoração genuína

5.  Oração eficaz

6.  Testemunho eficaz

7.  Comunhão eficaz

8.  Governo eclesiástico bíblico

9.  Poder espiritual no ministério

10.  Santidade de vida entre os membros

11.  Cuidado pelos pobres

12.  Amor por Cristo

 

D. O ensino do Novo Testamento sobre a unidade da igreja

Há uma grande ênfase no Novo Testamento sobre a unidade da igreja. O alvo de Jesus é que haja “um rebanho e um pastor” (Jo 10.16), e ele ora por todos os futuros cristãos “a fim de que todos sejam um” (Jo 17.21). Essa unidade será um testemunho para os descrentes, pois Jesus ora “a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.23).

 

E. Breve história da separação organizacional na igreja

Às vezes, há razões por que a unidade visível ou externa da igreja não pode ser mantida. Um breve resumo da história da separação organizacional da igreja pode esclarecer algumas razões e ajudar a explicar de onde procedem as divisões denominacionais que temos hoje.

 

F. Razões para a separação

À medida que examinamos os motivos que levaram muitos a dividir a igreja através da história, comparando tais motivos com as exigências do Novo Testamento de que devemos buscar tanto a unidade quanto a pureza da igreja visível, podemos encontrar razões válidas e inválidas para a separação. Entre as razões inválidas encontram-se algumas como ambição e orgulho pessoal ou diferenças sobre práticas e doutrinas menos importantes (padrões doutrinários ou de comportamento que não afetam qualquer outra doutrina e que não têm nenhum efeito expressivo no modo como se vive a vida cristã).

1. Razões doutrinárias.

Pode surgir a necessidade de separação quando a posição doutrinária de uma igreja desvia-se seriamente dos padrões bíblicos. Tal desvio pode aparecer nas declarações oficiais ou nas crenças e nos costumes, até onde se pode determiná-los. Mas quando o desvio doutrinário torna-se sério o suficiente para que seja necessário sair de uma igreja ou formar outra igreja? Como observamos acima, não há mandamentos no Novo Testamento que ordenem a separação da igreja verdadeira, enquanto esta permanece como parte do corpo de Cristo. A resposta de Paulo até mesmo para os que estavam em igrejas cheias de erros (mesmo em igrejas como a de Corinto, que tolerava sérios erros doutrinários e morais e por certo tempo tolerou alguns que rejeitavam a autoridade apostólica de Paulo) não foi dizer aos cristãos fiéis que se separassem de tais igrejas; Paulo admoesta essas igrejas, trabalha para levá-las ao arrependimento e ora por elas. Naturalmente, há ordens para disciplinar os que provocam problemas dentro da igreja, às vezes por meio da exclusão deles da comunhão da igreja (1Co 5.11-13; 2Ts 3.14-15; Tt 3.10-11), mas não há instruções para deixar a igreja e provocar divisão se isso não puder ser feito imediatamente (veja Ap 2.14-16, 20-25; cf. Lc 9.50; 11.23).

2. Questões de consciência.

Quanto à consciência, se um cristão não teve liberdade de pregar ou de ensinar conforme a sua consciência baseada nas Escrituras, deve-se considerar a separação como necessária ou pelo menos sábia. Todavia, é necessário cautela e grande humildade aqui: o julgamento individual pode estar distorcido, especialmente se não estiver fundamentado no consenso dos cristãos fiéis da história e dos cristãos do presente.

3. Considerações práticas.

Os cristãos podem decidir separar-se de uma igreja se, depois de reflexão acompanhada de muita oração, parecer-lhes que parmanecer naquela igreja provavelmente resultará mais em mal do que em bem. Isso poderia acontecer porque o trabalho deles pelo Senhor tornar-se-ia frustrado e ineficaz devido à oposição que enfrentariam dentro da própria igreja, ou porque enfrentariam pouca ou nenhuma comunhão com os outros na referida igreja. Além disso, alguns podem decidir que ficar na igreja prejudicaria a fé de outros cristãos ou impediriam os descrentes de chegar à fé verdadeira pelo fato de que a permanência como membros naquela igreja poderia ver-se em situações nas quais eles aprovam as falsas doutrinas de lá.

4. Existem ocasiões quando cooperação e comunhão pessoal são proibidas?

Finalmente, quando os cristãos devem dar passos mais sérios do que os já mencionados e empenhar-se em um tipo de separação que anteriormente chamamos “recusa de cooperação” ou “recusa de comunhão”? Os textos bíblicos que consideramos parecem exigir que os cristãos “não cooperem” em tais atividades com outro grupo somente quando este é incrédulo, ou, parece-me, somente quando um grupo incrédulo assume o controle da referida atividade (isso está implícito na metáfora de estar sob “jugo desigual” de 2Co 6.14). Naturalmente, pode-se achar sábio e prudente, sobre outras bases, decidir não cooperar numa função particular, mas a recusa à cooperação não parece ser uma exigência, exceto quando o outro grupo é um grupo incrédulo. Certamente, oposição a atividades tais como campanhas evangelísticas realizadas por outros cristãos verdadeiros são vistas pelos autores do Novo Testamento como divisoras e um fracasso em demonstrar a unidade do corpo de Cristo.