Princípios Hermenêuticos

30-01-2011 23:54

A Bíblia de Antes

Há uma regra hermenêutica que jamais mudará, a saber: "O texto bíblico de hoje, não esta dizendo nada além do texto bíblico de ontem". Aquilo que o autor bíblico pretendia dizer no passado, é exatamente aquilo que o Espírito quer nos dizer hoje. Não há uma nova interpretação, não existe um novo sentido no texto. Tudo esta igual aquilo que sempre foi. Hoje, ou antes, a Bíblia não mudou, o significado não mudou, o objetivo permanece o mesmo que sempre fora.

Deus continua igual e imutável, sua palavra não sofreu alteração, a Bíblia continua a mesma. Quando analisamos a hermenêutica de um texto da Bíblia, e compreendemos pelas regras e fundamentos o seu real sentido, ela significa o mesmo hoje. Entenda e pratique esta verdade. A Bíblia nunca mudará, porque ela é a palavra de Deus.

 

Princípios Teológicos

Teologia é o estudo da revelação que Deus fez a respeito Dele mesmo e da Sua relação com o mundo. O livro-fonte deste estudo é a Bíblia. A teologia procura tirar conclusões sobre vários tópicos, amplos e importantes, presentes na Bíblia. A que se assemelha Deus? Qual é a natureza do homem? Qual é a doutrina da salvação realmente válida? São estes os tipos de assuntos de que trata a teologia.
Você precisa compreender gramaticalmente a Bíblia, antes de compreendê-la teologicamente.
“Você precisa entender o que diz a passagem, antes de poder esperar entender o que ela quer dizer”.
Você terá de compreender o que uma passagem diz, antes de extrair dela quaisquer conclusões doutrinárias.
Uma doutrina não pode ser considerada bíblica, a não ser que resuma e inclua tudo o que a Escritura diz sobre ela.
É estulto chegar a uma conclusão antes de ouvir os argumentos todos. Assim também, é um erro chegar a conclusões a respeito de determinada doutrina antes de estudar tudo que a Bíblia diz sobre o assunto.
Quando parecer que duas doutrinas ensinadas na Bíblia são contraditórias, aceite ambas como escriturísticas, crendo confiamente que elas se explicarão dentro de uma unidade mais elevada.
Existe nas Escrituras certo número de aparentes contradições ou paradoxos. “Aparentes” porque na realidade não o são. Parecem contraditórias porque a mente finita do homem não pode compreender a mente infinita de Deus.
Nossa lealdade não é primeira e primordialmente a um sistema de teologia, mas á Escritura. Quando você interpretar a Bíblia, não permita que a lógica humana a faça dizer nem mais nem menos do que de fato diz. Na proporção em que as Escrituras falam com clareza, você pode falar com clareza. Quando as Escrituras fazem silêncio, você deve ficar em silêncio. Onde a Bíblia ensina duas doutrinas “conflitantes”, você deve seguir o exemplo dela e sustentar ambas, mantendo cada uma em perfeito equilíbrio com a outra.
Você não pode violar um princípio de interpretação a fim de justificar outro. O seu estudo da Bíblia precisa levar em conta todos os princípios, se é que pretende fazer uma interpretação válida.
“A Bíblia é a Palavra de Deus, de tal forma que, quando ela fala, Deus fala”. Não resta dúvida de que as pessoas podem fazer a Bíblia dizer o que querem ouvir, desde que descartem os métodos normais para a compreensão de documentos escritos.
A interpretação deve apoiar-se primeiramente na observação e, depois conduzir á aplicação. Ela é um meio que visa a um fim, não um fim em si mesma. O objetivo do estudo da Bíblia não se limita a apurar o que ela diz e o seu significado; inclui a aplicação dela á vida. Se não aplicarmos as Escrituras, estaremos encurtando o processo como um todo e deixando incompleto o que Deus deseja que façamos.
“A interpretação da Bíblia é uma das questões mais importantes que os cristãos enfrentam hoje. Dela resulta o que cremos, como vivemos, como nos relacionamos e o que temos a oferecer ao mundo”.
Quando transmitimos a Palavra de Deus, seja em aconselhamentos individuais, seja ensinando na escola dominical ou num grupo de estudo bíblico, seja pregando, o conhecimento que passamos, com base no nosso entendimento das Escrituras, sem dúvida alguma influenciará outras pessoas. Suas vidas estão em nossas mãos.
Quando a Bíblia não é interpretada corretamente, a teologia de um indivíduo ou de toda uma igreja pode ser desorientada ou superficial, e seu ministério, desequilibrado.

 

Princípios Históricos

Os princípios históricos tratam do cenário histórico do texto. Para quem e por quem foi escrito o livro? Por que foi escrito e que papel desempenhou o cenário histórico na formação da mensagem do livro? Quais os costumes e o ambiente do povo? São desse tipo as perguntas que você procura responder quando considera o aspecto histórico do seu estudo.
Desde que a Escritura originou-se num contexto histórico, só pode ser compreendida á luz da história bíblica. Embora a revelação de Deus nas Escrituras seja progressiva tanto o velho como o Novo Testamento são partes essenciais desta revelação e formam uma unidade.
Deus se revela progressivamente conforme a história se desenvolve. Mas isto não significa que os padrões de Deus se tornam progressivamente mais elevados ou que Deus muda no meio do caminho. Antes, nossa compreensão de Deus e de Sua revelação é que é progressiva. Deus não muda nunca.
A revelação que Deus faz de Si é progressiva, á medida que você vai lendo a Bíblia, mas o Seu caráter é imutável. O grandioso plano divino de redenção é o mesmo em ambos os testamentos. Ao estudar a Bíblia, você pode considerá-los duas partes do mesmo livro, não dois livros separados.

 

Princípios Gramaticais

Os princípios gramaticais tratam das palavras do texto propriamente ditas. Como você deverá entender as palavras e frases das passagens em estudo? Que regras básicas devem ser lembradas no trato do texto? Estes princípios respondem a essas questões.
Interprete as palavras no sentido que tinham no tempo do autor. Quando você estudar uma palavra particular, deverá determinar quatro coisas:
1. O uso que dela fez o escritor.
2. Sua relação com o seu contexto imediato.
3. Seu uso corrente na época em que foi escrita.
4. Seu sentido etimológico.
Ao interpretar uma palavra ou passagem, sua meta é determinar o sentido dela para o autor, quando a escreveu. Esforce-se para libertar-se de todo e qualquer preconceito pessoal quando estudar uma passagem. O seu objetivo é compreender o pensamento do escritor, não o que você acha que ele devia ter dito.
Interprete a palavra em relação á sua sentença e ao seu contexto.
Este estudo do contexto para determinar o sentido exato de uma palavra é uma das mais importantes e fundamentais regras de interpretação. Você se verá a consultá-lo a cada passo em seu estudo da Bíblia.
Cada escritor da Bíblia teve uma razão particular para escrever seu (s) livro (s). Ao desenrolar-se o argumento do escritor, há conexão lógica entre uma seção e a seguinte. Você precisa encontrar o propósito global do livro a fim de determinar o sentido de palavras ou passagens particulares no livro.

 

Princípios Gerais

Ao procurar submeter-se ao que dizem as Escrituras, é importante entender que na Bíblia a autoridade é expressa de várias maneiras.
1. Uma pessoa age como quem tem autoridade, e a passagem explica se o ato é aprovado ou reprovado.
O rei Davi queria construir um templo para Deus; assim Natã lhe disse: “Vai, faze tudo quanto está no teu coração; porque o Senhor é contigo” (2 Sm. 7:3). Natã falou em tom de autoridade a Davi o que este devia fazer, mas lemos que esse conselho foi errado e que Deus não queria que Davi edificasse o templo (v. 4-17).
2. Uma pessoa age com atitude de autoridade e a passagem não mostra aprovação nem reprovação.
Neste caso, a ação precisa ser julgada com base naquilo que o restante da Bíblia ensina sobre o assunto.
Por exemplo, Abraão e Sara vão para o Egito por causa da fome em Canaã (Gn. 12:10-20). Temeroso de que o faraó pudesse matá-lo para apossar-se da bela Sara, Abraão disse á sua esposa: “Dize, pois, que és minha irmã, para que me considerem por amor de ti e, por tua causa, me conservem a vida”. Foi uma atitude covarde de Abraão? A passagem não o diz. Você fica entregue, para a sua conclusão, á sua compreensão daquilo que o restante da Escritura tem para dizer sobre o assunto.
Omissão – citar só a parte que lhe convém e deixar de lado o restante. Há dois tipos de morte na Bíblia, física e espiritual. Morte física é separar-se a alma do corpo. Morte espiritual é separar-se a alma de Deus. Quando Deus disse a Adão: “Certamente morrerás” (Gn. 2:17), estava se referindo á morte física e á morte espiritual. Quando a serpente disse a Eva: “È certo que não morrereis” (3:4), estava omitindo de propósito o fato da morte espiritual.
Acréscimo – dizer mais do que a Bíblia diz. Em sua conversação com Satanás, Eva cita o que Deus falou a seu marido. Mas á Palavra de Deus acrescenta a frase: “Nem tocareis nele” (Gn. 3:3). Você pode torcer a Escritura fazendo-a dizer mais do que de fato diz.
Geralmente o motivo é o desejo de tornar irracional a ordem de Deus e assim indigna de ser obedecida.
Quando você estudar a Bíblia, deixe-a falar por si mesma. Não lhe acrescente nem lhe subtraia nada. Deixe que a Bíblia seja o seu próprio comentário. Ao estudar-se um capítulo ou um parágrafo, o contexto é o primeiro lugar em que você procurará a interpretação. As referências são úteis, mas você deve tentar estabelecer a referência do pensamento do versículo, e não de uma palavra ou frase apenas.
A Bíblia interpretará a si mesma, se for estudada apropriadamente.
As suas experiências pessoais—sejam quais forem—devem ser conduzidas ás Escrituras e interpretadas. Nunca o caminho inverso. “Porque tive esta experiência, o que se segue tem de ser verdade”, não é sadio procedimento na interpretação da Bíblia.
A experiência pessoal é parte importante da vida cristã, mas você deve ter o cuidado de mantê-la em seu lugar próprio. Conquanto você aprenda da experiência, não julgará a Bíblia sobre aquela base.
As Escrituras se fundem lindamente com as experiências da vida. Quanto mais tempo você passar estudando a Bíblia, mais esta verdade se imprimirá em sua vida.
É precisamente por esta razão que você deve ter cuidado para não inverter esta regra. Permita que a Palavra de Deus interprete e amolde as suas experiências, em vez de você interpretar a Escritura a partir das suas experiências.
Quando estudarmos a Bíblia, deveremos fazê-lo com cuidado para não restringirmos esta liberdade, quer para nós, quer para os outros. Para citar os grandes teólogos puritanos do passado: “A Bíblia é a nossa única regra de fé e prática”.
Quando o Espírito Santo superintendeu o registro da Escritura, sua intenção foi que nós, que lemos as Escrituras, aprendamos e apliquemos o que elas nos ensinam. A própria Escritura afirma que esse é o propósito por ela visado.
Todas as partes da Bíblia são aplicáveis a você, todavia, a interpretação correta é essencial, antes de procurar fazer aplicação. Falhar nisso pode levar a mal-entendido e desgosto desnecessários. Tenha o cuidado de interpretar corretamente a passagem; depois, devotamente faça a aplicação.
Cada cristão tem o direito e a responsabilidade de investigar e interpretar pessoalmente a Palavra de Deus.
Este princípio foi um dos abrangentes fundamentos da Reforma Protestante do século dezesseis. Por centenas de anos o povo dependera de que a igreja fizesse o estudo e a interpretação das Escrituras para ele. Não havia traduções da Bíblia na língua do povo. Quando se faziam tentativas para produzir essas traduções, a igreja as supria á força. Hoje existem múltiplas traduções e paráfrases ao alcance de todos, tornando fácil o acesso á Bíblia para quem quer que saiba ler.
O processo de cavar fundo na escritura e chegar á sua conclusão pessoal é o que transforma simples crenças em convicções solidamente firmadas. Envolver-se nesse processo é, não só seu direito como filho de Deus, mas também sua solene responsabilidade.
A igreja não determina o que a Bíblia ensina; a Bíblia determina o que a igreja ensina.
As interpretações da igreja têm autoridade somente na medida em que estejam em harmonia com os ensinamentos da Bíblia como um todo.
O propósito primário da Bíblia é mudar as nossas vidas, não aumentar o nosso conhecimento. Exatamente como é essencial que você interprete apropriadamente a passagem antes de aplicá-la, também é essencial interpretar apropriadamente a promessa antes de reivindicá-la.