O Ser Humano como Homem e Mulher

24-10-2011 18:20

A criação do ser humano como homem e mulher revela a imagem de Deus em (1) relações interpessoais harmoniosas, (2) igualdade em termos de pessoalidade e de importância e (3) diferença de papéis e autoridade.

A. Relacionamentos pessoais

Deus não criou os seres humanos como pessoas isoladas, mas, aos nos fazer à sua imagem, criou-nos de forma tal que podemos alcançar unidade interpessoal de várias formas em todos os modos de sociedade humana. A unidade interpessoal pode ser especialmente profunda na família, e também na nossa família espiritual, a igreja. Entre o homem e a mulher, nesta era atual, a unidade interpessoal atinge a sua expressão mais plena no casamento, em que marido e mulher se tornam, em certo sentido, duas pessoas em uma: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24).

 

B. Igualdade em termos de pessoalidade e importância

Assim como os membros da Trindade são iguais na sua importância e na sua plena existência como pessoas distintas, também homens e mulheres foram criados por Deus iguais na sua importância e na sua pessoalidade. Quando Deus criou o homem, os criou “homem e mulher” à sua imagem (Gn 1.27; 5.1-2). O homem e a mulher foram feitos igualmente à imagem de Deus, e tanto homens como mulheres refletem o caráter divino. Isso significa que devemos enxergar os aspectos do caráter de Deus uns nos outros.

 

C. Diferenças de papéis

1. A relação entre a Trindade e a liderança masculina no casamento.

Entre os membros da Trindade sempre houve igualdade de importância, pessoalidade e divindade por toda a eternidade. Mas sempre houve também diferenças de papéis entre os membros da Trindade. Deus Pai sempre foi o Pai, e sempre se relacionou com o Filho como um Pai se relaciona com seu Filho. Embora os três membros da Trindade sejam iguais em poder e em todos os outros atributos, o Pai tem a autoridade mais elevada. Ele exerce um papel de liderança entre os membros da Trindade, papel esse que nem o Filho nem o Espírito Santo têm.

2. Indicações de papéis distintos antes da queda.

Mas será que essas distinções entre os papéis masculinos e femininos faziam parte da criação original de Deus, ou será que foram introduzidas como parte do castigo da queda? Será que foi quando Deus disse a Eva: “O teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16), que ela passou a estar sujeita à autoridade de Adão?

Examinando a narrativa da criação em Gênesis, percebemos várias indicações de diferenças de papéis entre Adão e Eva mesmo antes do surgimento do pecado no mundo.

a. Adão foi criado primeiro, depois Eva. O fato de ter Deus criado primeiro Adão, e só depois de certo tempo, Eva (Gn 2.7, 18-23), sugere que Deus tinha Adão como líder dentro da família. Não se menciona procedimento desse tipo, em duas etapas, na criação de nenhum dos animais, mas aqui parece haver um propósito especial. A criação primeiro de Adão é compatível com o padrão da “primogenitura” no Antigo Testamento, a idéia de que o primogênito de cada geração de uma família humana detém a liderança dentro da família naquela geração.

b. Eva foi criada como auxiliadora de Adão. As Escrituras especificam que Deus fez Eva para Adão, não Adão para Eva. Disse Deus: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18). Paulo dá a esse versículo tanta importância que nele baseia a exigência de diferenças entre homens e mulheres no culto. Diz ele: “Também o homem não foi criado por causa da mulher, e sim a mulher, por causa do homem” (1Co 11.9). Não se deve supor aqui uma sugestão de importância menor, mas sim que existe uma diferença de papéis desde o princípio.

c. Adão deu nome a Eva. O fato de ter Adão dado nomes a todos os animais (Gn 2.19-20) indica a autoridade de Adão sobre o reino animal, pois no pensamento do Antigo Testamento o direito de dar nome a alguém implicava autoridade sobre essa pessoa (isso se percebe tanto quando Deus dá nomes a pessoas como Abraão e Sara como quando os pais dão nomes aos seus filhos). Como o nome hebraico designava o caráter ou a função da pessoa, Adão especificava as características ou as funções dos animais ao atribuir-lhes nomes.

d. Deus chamou “homem” a raça humana, e não “mulher”. O fato de ter Deus denominado “homem” a raça humana, e não “mulher” ou algum termo neutro em relação ao gênero, já foi explicado no capítulo 21. Gênesis 5.2 especifica que “no dia em que foram criados” Deus “os chamou pelo nome de homem” (ibb). A denominação da raça humana com um termo que também se referia a Adão em particular, ou ao homem em distinção da mulher, sugere o papel de liderança do homem.

e. A serpente aproximou-se primeiro de Eva. Satanás, depois de ter pecado, tentava distorcer e minar tudo o que Deus havia planejado e criado bom. É provável que Satanás (na forma de uma serpente), ao aproximar-se primeiro de Eva, tentasse instituir um papel inverso ao incitar Eva a tomar a liderança na desobediência a Deus (Gn 3.1).

f. Deus falou primeiro a Adão depois da queda. Assim como Deus falou a Adão quando este estava só antes da criação de Eva (Gn 2.15-17), também, depois da queda, ainda que Eva tivesse pecado primeiro, Deus primeiro foi ter com Adão e pediu a ele explicações sobre os seus atos: “E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás?” (Gn 3.9). Deus tinha Adão como líder da família, aquele que primeiro deveria ser convocado a explicar o que acontecera na família.

g. Adão, não Eva, representava a raça humana. Ainda que Eva tenha pecado primeiro (Gn 3.6), somos tidos como pecadores por causa do pecado de Adão, e não por causa do pecado de Eva. Diz-nos o Novo Testamento: “Em Adão todos morrem” (1Co 15.22; cf. v. 49) e “Pela ofensa de um só [homem], morreram muitos” (Rm 5.15; cf. v. 12-21). Isso indica que Deus dera a Adão a chefia ou liderança da raça humana, papel que não foi dado a Eva.

h. A maldição inseriu uma distorção nos papéis anteriores, sem no entanto introduzir novos papéis. Nos castigos que Deus impôs a Adão e Eva, não introduziu, ele, novos papéis ou funções, mas simplesmente a dor e a distorção nas funções já previamente estabelecidas. Assim, Adão ainda teria a responsabilidade primária de arar o solo e cultivar as lavouras, mas o solo produziria “cardos e abrolhos” e no suor do seu rosto ele comeria o seu pão (Gn 3.18, 19). Do mesmo modo, Eva ainda teria a responsabilidade de gerar filhos, mas isso se tornaria doloroso: “Em meio de dores darás à luz filhos” (Gn 3.16).

i. A redenção de Cristo reafirma a ordem da criação. Se está correta a argumentação precedente sobre introdução da distorção dos papéis na queda, então seria de esperar que encontrássemos no Novo Testamento a reversão dos aspectos dolorosos do relacionamento resultante do pecado e da maldição. Seria de esperar que em Cristo, a redenção incentivasse as esposas a não se rebelar contra a autoridade do marido e estimulasse também os maridos a não impor a autoridade com aspereza. De fato, é exatamente isso que encontramos: “Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura” (Cl 3.18-19; cf. Ef 5.22-33; Tt 2.5; 1Pe 3.1-7).

3. Efésios 5.21-33 e a questão da submissão mútua. Lemos em Efésios 5:

As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido (Ef 5.22-24).

Embora na superfície isso pareça confirmar aquilo que argumentamos acima a respeito da ordem da criação para o casamento, nos últimos anos tem havido algum debate acerca do significado da expressão “ser submisso a” (gr. ) nessa passagem. Algumas pessoas a interpretam como “ser solícito e atencioso; agir com amor [um para com o outro]”. Entendido assim, o texto não prega que a esposa tem a singular responsabilidade de ser submissa à autoridade do marido, pois tanto marido quanto esposa precisam ser atenciosos e amorosos um para com o outro, e segundo essa opinião não se tem nessa passagem submissão à autoridade.

 

D. Nota sobre a aplicação no casamento

Se nossa análise está correta, então há algumas aplicações práticas, especialmente dentro do casamento, e também nos relacionamentos entre homens e mulheres em geral.

Quando os maridos passam a agir de modo egoísta, áspero, dominador, ou mesmo violento e cruel, devem se dar conta de que isso é resultado do pecado, resultado da queda e, portanto, destrutivo e contrário aos desígnios de Deus para eles. Agir assim gera grande destruição na vida, especialmente no casamento.