O Poder da Igreja

29-10-2011 17:50

Quando olhamos para os governos do mundo e para outras organizações educacionais e empresariais que possuem grande influência, e então consideramos nossas igrejas locais, ou até mesmo nossas sedes denominacionais, a igreja pode parecer-nos fraca e ineficiente. Além disso, quando reconhecemos o rápido crescimento do mal visto diariamente em nossa sociedade, podemos duvidar se a igreja tem poder para fazer quaisquer mudanças.

Por outro lado, em alguns países a igreja oficialmente reconhecida tem grande influência sobre o andamento das questões nacionais. Isso é certamente verdadeiro no caso da influência da Igreja Católica Romana em tempos passados em alguns países do sul da Europa e da América Latina (e até certo ponto isso ocorre ainda hoje). Tal foi o caso da Igreja da Inglaterra nos séculos anteriores e da igreja de João Calvino em Genebra, na Suíça, enquanto ele era vivo, e da igreja fundada pelos peregrinos em 1620 na colônia da baía de Massachusetts. Situações como essas nas quais a igreja parece ter grande influência levam-nos a perguntar se as Escrituras colocam alguma limitação sobre o poder da igreja.

 

A. A batalha espiritual

Paulo lembra aos coríntios: “Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas” (2Co 10.3-4). Entre essas armas usadas contra forças demoníacas que impedem a propagação do evangelho e o avanço da igreja encontram-se oração, adoração, autoridade para repreender forças demoníacas, as palavras das Escrituras, fé e retidão de conduta por parte dos membros da igreja. (Paulo dá mais detalhes sobre o nosso combate espiritual e sobre a armadura própria para isso em Ef 6.10-18).

 

B. As chaves do reino

A frase “as chaves do reino” ocorre apenas uma vez na Bíblia, em Mateus 16.19, onde Jesus diz a Pedro: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus”. Qual é o significado dessas “chaves do reino dos céus”?

Em outras passagens do Novo Testamento, chave sempre implica autoridade para abrir uma porta e permitir entrada para certo lugar ou esfera. Jesus afirma: “Ai de vós, intérpretes da lei! Porque tomastes a chave da ciência; contudo vós mesmos não entrastes e impedistes os que estavam entrando” (Lc 11.52). Além disso, Jesus diz em Apocalipse 1.18: “Tenho as chaves da morte e do Inferno (Hades)”, indicando que ele tem autoridade para permitir a entrada e a saída dessas esferas. (Cf. também Ap 3.7; 9.1; 20.1; bem como a predição messiânica de Is 22.22.)

 

C. O poder da igreja e o poder do Estado

As seções anteriores discutiram o poder espiritual e a batalha espiritual que devem ser exercidos pela igreja. Mas deveria a igreja alguma vez usar da força física (armas e exércitos por exemplo) para levar a efeito suas missões? A frase normalmente usada para referir-se à idéia de luta física e desse mundo é “fazer uso da espada”.

Há diversas indicações nas Escrituras de que a igreja nunca deve fazer uso da espada para levar a efeito os seus propósitos na era da nova aliança. Esse foi um erro terrível cometido nas Cruzadas, quando os exércitos sustentados pela igreja marcharam pela Europa e pela Ásia para tentar reconquistar a terra de Israel. Nesses casos a igreja estava tentando usar a força física para conquistar vitórias em territórios deste mundo. Todavia Jesus afirmou: “O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam” (Jo 18.36 nvi). A igreja tem o poder das chaves, que é poder espiritual. Isso significa travar batalhas espirituais com armas espirituais, mas não usar o poder da espada para alcançar seus propósitos. “Porque as armas da nossa milícia não são carnais” (2Co 10.4).

 

D. A disciplina eclesiástica

Visto que a disciplina eclesiástica é um aspecto do uso do poder da igreja, é conveniente apresentar aqui uma discussão dos princípios bíblicos relevantes para a prática da disciplina eclesiástica.

1. O propósito da disciplina eclesiástica

a. Restauração e reconciliação do cristão que se está desviando. O pecado impede a comunhão com outros cristãos e com Deus. Para que haja reconciliação, o pecado precisa ser tratado. Portanto, o propósito principal da disciplina eclesiástica é alcançar o duplo alvo de restauração (levar o pecador ao comportamento correto) e de reconciliação (entre cristãos e com Deus). Assim como pais sábios disciplinam seus filhos (Pv 13.24: “Mas o que o ama [o filho], cedo, o disciplina”), e assim como Deus, nosso pai, disciplina a quem ama (Hb 12.6; Ap 3.19), também a igreja em sua disciplina age em amor para trazer de volta um irmão ou irmã que se tenha desviado, estabelecendo de novo tal pessoa em comunhão e livrando-a dos caminhos destrutivos da vida. Em Mateus 18.15, a esperança é que a disciplina pare no primeiro passo, quando alguém vai sozinho: “Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão”.  A frase “ganhaste a teu irmão” implica que aqueles que exercem a disciplina devem manter o alvo de reconciliação pessoal entre os cristãos sempre em mente. Paulo lembra-nos que devemos “restaurar” (nvi) o irmão (ou irmã) pecador “com espírito de brandura” (Gl 6.1), e Tiago incentiva-nos a “converter o pecador do seu caminho errado” (Tg 5.20).

b. Impedir que o pecado se espalhe, atingindo outros. Embora o primeiro alvo da disciplina eclesiástica seja restauração e reconciliação do crente que está no erro, nessa presente era a reconciliação e restauração nem sempre acontecerão. Mas quer ocorra a restauração, quer não, a igreja está ordenada a exercer disciplina, pois dois outros propósitos também estão em vista.

c. Proteger a pureza da igreja e a honra de Cristo. O terceiro propósito da disciplina eclesiástica é que a pureza da igreja deve ser protegida, para que Cristo não seja desonrado. Naturalmente, nenhum cristão, nessa era, tem o coração completamente puro, e todos nós temos algum pecado que permanece em nossa vida. Mas quando um membro da igreja permanece em pecado de maneira indubitavelmente óbvia para os outros, em particular para os descrentes, isso traz, sem dúvida, desonra a Cristo. É semelhante à situação dos judeus que desobedeciam à lei de Deus e levavam descrentes a ridicularizar e a blasfemar o nome de Deus (Rm 2.24: “O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa”).

2. Por causa de quais pecados a disciplina eclesiástica deve ser exercida?

Por um lado, o ensino de Jesus em Mateus 18.15-20 fala-nos que se uma situação que envolve um pecado de alguém contra outrem não pode ser resolvido em uma reunião privada ou de um grupo pequeno, o assunto deve, então, ser levado à igreja:

Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano (Mt 18.15-17).

 

Nesse caso o assunto avançou de uma situação particular e informal para um processo de disciplina público e muito mais formal, feito pela igreja inteira.

3. Como deve ser exercida a disciplina eclesiástica?

a. O conhecimento do pecado deve ser preservado dentro do menor grupo possível. Esse parece ser o propósito de Mateus 18.15-17, que está por trás do avanço gradual que começa numa reunião privada, passa para uma reunião com duas ou três pessoas e chega à revelação a toda a igreja. Quanto menos pessoas souberem de algum pecado, melhor, pois é mais fácil haver arrependimento, um número menor de pessoas se desvia, e a reputação da pessoa envolvida, da igreja e de Cristo é menos prejudicada.

b. Medidas disciplinares devem ser cada vez mais severas até que haja uma solução. Uma vez mais em Mateus 18 Jesus nos ensina que não podemos parar simplesmente em uma conversa privada se essa não trouxer resultados satisfatórios. Ele exige que o pessoa ofendida vá primeiro sozinha, e então leve mais uma ou duas outras pessoas (Mt 18.15-16). Além disso, se um cristão acha que ofendeu alguém (ou se alguém acha que foi ofendido), Jesus exige que a pessoa que cometeu o erro (ou que se acredita ter errado) vá à pessoa que se considera vítima do erro cometido (Mt 5.23). Isso significa que se fomos ofendidos ou outros acham que foram ofendidos, sempre é nossa responsabilidade tomar a iniciativa e ir falar com a outra pessoa. Jesus não nos permite que esperemos a outra pessoa vir falar conosco.

c. A disciplina dos líderes da igreja. Em uma passagem Paulo apresenta diretrizes concernentes à disciplina dos líderes da igreja:

Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam. Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade (1Tm 5.19-21).

 

Paulo apresenta aqui uma cautela especial a fim de proteger os líderes de ataques individuais: uma medida com respeito ao pecado, nesse caso, exige o depoimento de duas ou três testemunhas. “Os que vivem no pecado” devem ser repreendidos “na presença de todos”. A razão disso é que o mau exemplo da conduta pecaminosa dos líderes terá muito provavelmente o efeito negativo que se disseminará nos outros que vêem a vida deles. Assim Paulo aconselha Timóteo a “nada fazer com parcialidade” em tal situação, advertência muito útil, já que Timóteo era provavelmente muito amigo de vários líderes da igreja de Éfeso.

d. Outros aspectos da disciplina eclesiástica. Uma vez que a disciplina seja exercida, tão logo haja arrependimento em qualquer estágio do processo, os cristãos cientes da disciplina devem receber de coração o arrependido na comunhão da igreja com rapidez. Paulo afirma: “De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza [...] Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor” (2Co 2.7-8; cf. 7.8-11). Uma vez mais, nosso propósito na disciplina eclesiástica nunca deve ser punir alguém com um desejo de vingança, mas sempre restaurá-lo e curá-lo.