O Caráter de Deus: Atributos “Comunicáveis”

23-10-2011 23:00

A lista de atributos dada aqui na categoria “comunicáveis” nada tem de incomum, mas compreender a definição de cada atributo é mais importante do que ser capaz de classificá-los exatamente da maneira apresentada neste livro.

Este capítulo divide os atributos “comunicáveis” de Deus em cinco categorias principais, sendo os atributos relacionados dentro de cada categoria.

Desta forma os atributos descrevem o ser de Deus são:

1. Espiritualidade.

As pessoas muitas vezes se perguntam do que Deus é feito. A resposta das Escrituras é que “Deus é espírito” (Jo 4.24). Essa afirmação é feita por Jesus no contexto de uma discussão com a samaritana ao lado da fonte. Assim, não devemos pensar que Deus tem tamanho ou dimensões, mesmo que infinitas (ver a discussão sobre a onipresença de Deus no capítulo anterior).

2. Invisibilidade.

Ligado à espiritualidade de Deus está o fato de que Deus é invisível. Porém também precisamos falar das formas visíveis nas quais Deus se manifesta. A invisibilidade de Deus pode ser definida assim: dizer que Deus tem como atributo a invisibilidade é dizer que a essência integral de Deus, todo o seu ser espiritual, jamais poderá ser vista por nós, embora Deus se revele a nós por meio de coisas visíveis, criadas.

3. Conhecimento (onisciência).

O conhecimento de Deus pode ser definido assim: Deus conhece plenamente a si mesmo e todas as coisas reais e possíveis num ato simples e eterno.

A definição dada acima explica a onisciência com mais detalhes. Diz primeiro que Deus conhece plenamente a si mesmo. Trata-se de um fato espantoso, pois o próprio ser divino é infinito ou ilimitado.

4. Sabedoria.

Dizer que Deus tem sabedoria significa dizer que ele sempre escolhe as melhores metas e os melhores meios para alcançar essas metas. Essa definição vai além da idéia de que Deus conhece todas as coisas, e especifica que as decisões divinas quanto ao que fará são sempre sábias, ou seja, sempre trazem os melhores resultados (do ponto de vista absoluto de Deus), e trazem esses resultados pelos melhores meios possíveis.

5. Veracidade (e fidelidade).

A veracidade divina implica que ele é o Deus verdadeiro, e que todo o seu conhecimento e todas as suas palavras são ao mesmo tempo verdadeiros e o parâmetro definitivo da verdade.

O termo fidedignidade, que significa “veracidade” ou “confiabilidade”, é às vezes usado como sinônimo da veracidade divina.

6. Bondade.

A bondade de Deus implica que ele é o parâmetro definitivo do que é bom, e que tudo o que Deus é e faz é digno de aprovação.

Nessa definição, vemos uma situação semelhante à que encontramos na definição de Deus como o Deus verdadeiro. Aqui, “bom” pode ser interpretado como “digno de aprovação”, mas ainda falta responder à seguinte pergunta: aprovação de quem? Em certo sentido, podemos dizer que qualquer coisa que seja verdadeiramente boa deve ser digna da nossa aprovação. Mas num sentido mais absoluto, não somos livres para decidir por contra própria o que é digno de aprovação e o que não o é. Em última análise, portanto, o ser e os atos de Deus são perfeitamente dignos da sua própria aprovação.

7. Amor.

Dizer que Deus tem o amor como atributo é dizer que ele se doa eternamente aos outros.

Essa definição interpreta o amor como uma doação de si mesmo em benefício dos outros. Esse atributo de Deus mostra que faz parte da sua natureza doar-se a fim de distribuir bênçãos ou o bem aos outros.

João nos diz que “Deus é amor” (1Jo 4.8). Temos sinais de que esse atributo de Deus já existia antes da criação entre os membros da Trindade. Jesus fala ao Pai da “glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.24), indicando assim que o Pai já amava e honrava o Filho desde a eternidade. E continua até hoje, pois lemos: “O Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos” (Jo 3.35).

8. Misericórdia, graça, paciência.

A misericórdia, a paciência e a graça divinas podem ser tidas como três atributos separados ou como aspectos particulares da bondade de Deus. As definições dadas aqui apresentam esses atributos como casos especiais da bondade de Deus quando empregada em benefício de categorias específicas de pessoas.

A misericórdia de Deus é a bondade divina para com os angustiados e aflitos.

A graça de Deus é a bondade divina para com os que só merecem castigo.

A paciência de Deus é a bondade divina no sustar a punição daqueles que persistem no pecado por determinado tempo.

9. Santidade.

Dizer que Deus tem como atributo a santidade é dizer que ele é separado do pecado e dedica-se a buscar a sua própria honra. Essa definição contém ao mesmo tempo uma qualidade relacional (separação de) e uma qualidade moral (a separação é do pecado ou do mal, e a dedicação é em prol da própria honra ou glória de Deus). A idéia de santidade, abarcando tanto a separação do mal quanto a dedicação de Deus à sua própria glória, encontra-se em várias passagens do Antigo Testamento.

10. Paz (ou ordem).

Em 1Coríntios 14.33, Paulo diz: “Deus não é de confusão, e sim de paz”. Embora “paz” e “ordem” não sejam tradicionalmente classificadas como atributos divinos, Paulo aqui sugere outra qualidade que poderíamos conceber como atributo distinto de Deus. Paulo diz que os atos de Deus se caracterizam pela “paz” e não pela “desordem” (gr. akatastasia, palavra que significa “desordem, confusão, inquietude”).

11. Retidão, justiça.

Em português as palavras retidão e justiça são duas palavras distintas, mas tanto no Antigo Testamento hebraico quanto no Novo Testamento grego, só há uma palavra por trás desses dois termos. (No Antigo Testamento, esses termos traduzem principalmente as várias formas da palavra tsedek e, no Novo Testamento, as várias formas da palavra dikaios). Portanto, consideraremos que esses dois termos designam um único atributo divino.

12. Zelo.

Tem o significado de estar alguém profundamente comprometido com a busca da honra ou do bem-estar de outrem ou de si mesmo. Diz Paulo aos coríntios: “Zelo por vós com zelo de Deus” (2Co 11.2). Aqui o sentido é “empenhado na proteção e na vigília”.

As Escrituras apresentam-nos um Deus zeloso, nesse sentido do termo. Ele contínua e sinceramente busca proteger a sua própria honra. Ordena que seu povo não se prostre perante ídolos, nem os sirva, dizendo: “... porque eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso” (Êx 20.5).

13. Ira.

Talvez nos surpreenda perceber que a Bíblia fala com muita freqüência da ira de Deus. Porém, se Deus ama tudo o que é certo e bom, e tudo o que se conforma ao seu caráter moral, então não deve admirar que ele odeie tudo o que se opõe ao seu caráter moral. A ira de Deus diante do pecado está portanto intimamente associada à santidade e à justiça de Deus. A ira de Deus pode ser definida assim: dizer que a ira é atributo de Deus é dizer que ele odeia intensamente todo o pecado.

14. Vontade.

A vontade de Deus é o atributo por meio do qual ele aprova e decide executar todo ato necessário para a existência e para a atividade de si mesmo e de toda a criação.

Essa definição indica que a vontade de Deus tem que ver com a decisão e com a aprovação das coisas que Deus é e faz. Envolve as escolhas divinas do que fazer e do que não fazer.

a. A vontade de Deus em geral. As Escrituras freqüentemente indicam a vontade de Deus como razão definitiva ou absoluta para qualquer coisa que acontece. Paulo se refere a Deus como aquele “que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).

b. Distinções nos aspectos da vontade de Deus:

  1. vontade necessária e vontade livre. Algumas distinções já traçadas no passado podem-nos ajudar a compreender diversos aspectos da vontade de Deus. Assim como podemos querer ou escolher algo com anseio ou relutância, com alegria ou arrependimento, em segredo ou publicamente, também Deus, na infinita grandeza da sua personalidade, é capaz de querer coisas diferentes de modos diversos.
  2. Vontade secreta e vontade revelada. Outra distinção proveitosa aplicada aos diferentes aspectos da vontade divina é a que se faz entre a vontade secreta e a vontade revelada de Deus. Mesmo na nossa experiência sabemos que somos capazes de desejar algumas coisas secretamente, e só mais tarde revelar essa vontade aos outros. Às vezes contamos aos outros antes que a coisa desejada surja ou aconteça; noutras vezes revelamos o segredo só quando o acontecimento desejado já ocorreu.

15. Liberdade.

A liberdade de Deus é o atributo por meio do qual ele faz o que lhe apraz. Essa definição implica que nada em toda a criação pode impedir que Deus execute a sua vontade. Esse atributo de Deus está portanto intimamente associado à sua vontade e ao seu poder. Mas esse aspecto da liberdade concentra-se no fato de Deus não se ver cerceado por nada que lhe seja exterior e de ser ele livre para fazer o que desejar. Não há pessoa ou força que possa ditar a Deus o que fazer. Ele não está debaixo de nenhuma autoridade nem de nenhuma limitação exterior.

16. Onipotência (poder, soberania).

A onipotência é o atributo de Deus que lhe permite fazer tudo o que for da sua santa vontade. A palavra onipotência vem de dois termos latinos, omni, “todo”, e potens, “poderoso”, significando portanto “todo-poderoso”. Enquanto a liberdade de Deus se refere ao fato de não haver constrangimentos exteriores às decisões de Deus, a onipotência divina refere-se ao seu próprio poder de fazer o que decidir fazer.

17. Perfeição.

A perfeição é o atributo divino que permite que Deus possua com excelência absolutamente todas as qualidades e não careça de nenhum aspecto dessas qualidades que lhe seja desejável.

É difícil decidir se isso deve ser tido como atributo isolado ou simplesmente incluído na descrição dos outros. Algumas passagens dizem que Deus é “perfeito” ou “completo”. Diz-nos Jesus: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48).

18. Bem-aventurança.

Ser “bem-aventurado” ou “bendito” é ser feliz num sentido bastante pleno e magnífico. Freqüentemente as Escrituras falam da bem-aventurança das pessoas que andam nos caminhos de Deus. Em 1Timóteo, porém, Paulo denomina a Deus “bendito e único Soberano” (1Tm 6.15) e fala do “evangelho da glória do Deus bendito” (1Tm 1.11). Em ambos os casos a palavra não  é eulogêtos (muitas vezes traduzida como “bendito”), mas makarios (que significa “feliz”).

19. Beleza.

A beleza é o atributo divino por meio do qual Deus se revela a soma de todas as qualidades desejáveis. Esse atributo divino está implícito em vários dos atributos anteriores e é especialmente associado à perfeição de Deus. Porém, a perfeição de Deus foi definida de uma forma que mostra que ele não carece de nada que lhe seria desejável. Este atributo, a beleza, se define de uma maneira positiva, para mostrar que Deus de fato possui todas as qualidades desejáveis: “perfeição” significa que Deus não carece de nada desejável; “beleza” significa que Deus tem tudo o que é desejável. São duas formas diferentes de declarar a mesma verdade.

20. Glória.

Num dos seus sentidos a palavra glória significa simplesmente “honra” ou “reputação excelente”. Esse é o significado do termo em Isaías 43.7, em que Deus fala dos seus filhos, “que criei para minha glória”, ou em Romanos 3.23, que diz que “todos pecaram e carecem da glória de Deus”. Noutro sentido, a “glória” de Deus significa a clara luz que circunda a presença de Deus. Como Deus é espírito, e não energia nem matéria, essa luz visível não faz parte do ser divino, mas é algo criado. Podemos defini-la assim: a glória de Deus é o brilho criado que circunda a revelação do próprio Deus.