O Milênio

29-10-2011 18:15

A palavra milênio significa “mil anos” (do lat. millennium, “mil anos”). O termo vem de Apocalipse 20.4-5, onde se diz que “viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos”. Pouco antes dessa declaração, lemos que um anjo desceu do céu, agarrou o diabo “e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos” (Ap 20.2-3).

Ao longo da história da igreja tem havido três visões principais sobre a época e a natureza desse “milênio”.

 

A. Uma explicação das três posições principais

1. Amilenismo.

A primeira posição aqui explicada, o amilenismo, é realmente a mais simples. Segundo essa posição, a passagem de Apocalipse 20.1-10 descreve a presente era da igreja. Trata-se de uma era em que a influência de Satanás sobre as nações sofre grande redução de modo que o evangelho pode ser pregado por todo o mundo. Aqueles que reinam com Cristo por mil anos são os cristãos que morreram e já estão reinando com Cristo no céu. O reino de Cristo no milênio, segundo esse ponto de vista, não é um reino físico aqui na terra, mas sim o reino celestial sobre o qual ele falou ao declarar: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18).

2. Pós-milenismo.

O prefixo pós significa “depois”. Segundo esse ponto de vista, Cristo voltará após o milênio. Segundo esse ponto de vista, o avanço do evangelho e o crescimento da igreja se acentuarão de forma gradativa, de tal modo que uma proporção cada vez maior da população mundial se tornará cristã. Como conseqüência, haverá influências cristãs significativas na sociedade, esta funcionará mais e mais de acordo com os padrões de Deus e gradualmente virá uma “era milenar” de paz e justiça sobre a terra. Esse “milênio” durará um longo período (não necessariamente de mil anos literais) e, por fim, ao final desse período, Cristo voltará à terra, crentes e incrédulos serão ressuscitados, ocorrerá o juízo final e haverá um novo céu e uma nova terra. Entraremos então no estado eterno.

3. Pré-milenismo

a. Pré-milenismo clássico ou histórico. O prefixo “pré” significa “antes” e a posição pré-milenista diz que Cristo irá voltar antes do milênio. Esse ponto de vista é defendido desde os primeiros séculos do cristianismo. Segundo esse ponto de vista, a presente era da igreja continuará até que, com a proximidade do fim, venha sobre a terra um período de grande tribulação e sofrimento (T na figura acima indica tribulação). Depois desse período de tribulação no final da era da igreja, Cristo voltará à terra para estabelecer um reino milenar.

b. Pré-milenismo pré-tribulacionista (ou pré-milenismo dispensacionalista). Outra variedade de pré-milenismo conquistou ampla popularidade nos séculos XIX e XX, em especial no Reino Unido e nos Estados Unidos. Segundo essa posição, Cristo voltará não só antes do milênio (a volta de Cristo é pré-milenar), mas também ocorrerá antes da grande tribulação (a volta de Cristo é pré-tribulacional). Esse ponto de vista é semelhante à posição pré-milenista clássica mencionada acima, mas com uma importante diferença: acrescenta outra volta de Cristo antes de sua vinda para reinar sobre a terra no milênio. Essa volta é vista como um retorno secreto de Cristo para tirar os crentes do mundo.

 

B. Considerações sobre os argumentos em favor do amilenismo

Em favor da postura amilenista, apresentam-se os seguintes argumentos:

1. Quando olhamos através de toda a Bíblia, dirão os amilenistas, apenas uma passagem (Ap 20.1-6) parece ensinar um futuro domínio milenar de Cristo aqui na terra, e essa passagem em si é obscura. Não é sábio basear uma doutrina tão importante em uma passagem de interpretação incerta e amplamente contestada.

Mas como os amilenistas entendem Apocalipse 20.1-6? Segundo a interpretação amilenista, essa passagem refere-se à presente era da igreja.

2. Um segundo argumento que se apresenta muitas vezes em favor do amilenismo é o fato de que as Escrituras ensinam apenas uma ressurreição, em que tanto os crentes como os incrédulos serão ressuscitados, e não duas ressurreições (uma ressurreição dos crentes antes do início do milênio e uma ressurreição dos incrédulos para o julgamento depois do fim do milênio). Este é um argumento importante, pois o ponto de vista pré-milenista exige duas ressurreições distintas, separadas por mil anos.

3. A idéia de crentes glorificados e pecadores vivendo juntos sobre a terra é difícil demais de aceitar. Berkhof diz: “É impossível entender como parte da velha terra e da humanidade pecadora pode existir lado a lado com parte da nova terra e da humanidade glorificada. Como podem santos perfeitos, em corpo glorificado, ter comunhão com pecadores na carne? Como podem pecadores glorificados viver nessa atmosfera sobrecarregada de pecado e em meio a cenas de morte e decadência?”

4. Se Cristo vem em glória para reinar sobre a terra, como as pessoas ainda conseguiriam persistir no pecado? Se Jesus vai estar realmente presente em seu corpo ressurreto e governar como Rei sobre a terra, não seria bem improvável que as pessoas ainda o rejeitem e que o mal e a rebelião prosperem sobre a terra até que no final Satanás consiga reunir as nações para a batalha contra Cristo? 

5. Parece não haver nenhum propósito convincente para esse milênio. Uma vez que a era da igreja tenha chegado ao fim e Cristo tenha voltado, qual a razão para atrasar o início do estado eterno?

6. Para terminar, os amilenistas dizem que as Escrituras parecem indicar que todos os principais eventos que ainda estão por vir antes do estado eterno ocorrerão de uma só vez. Cristo voltará, haverá uma ressurreição de crentes e incrédulos, virá o julgamento final e um novo céu e uma nova terra serão estabelecidos. E então entraremos imediatamente no estado eterno, sem nenhum milênio futuro.

 

C. Uma consideração de argumentos em favor do pós-milenismo

Os argumentos em favor do pós-milenismo são os seguintes:

1. A Grande Comissão leva-nos a esperar que o evangelho se propague com poder e acabe por fim resultando num mundo em boa parte cristão.

2. Parábolas sobre o crescimento gradual do reino indicam que, por fim, sua influência cobrirá a terra.

3. Os pós-milenistas também diriam que o mundo está se tornando mais cristão.

Em resposta aos argumentos pós-milenistas, é possível levantar os seguintes pontos:

1. A Grande Comissão de fato fala da autoridade colocada nas mãos dos cristãos, mas isso não implica necessariamente que Cristo usará essa autoridade para provocar a conversão da maioria da população do mundo.

2. As parábolas da semente de mostarda e do fermento de fato nos falam que o reino de Deus crescerá gradualmente de algo bem pequeno para algo muito grande, mas não falam da dimensão do crescimento do reino.

3. Em resposta ao argumento de que o mundo está-se tornando mais cristão, deve-se dizer que o mundo também está piorando.

4. Por fim, devemos observar que algumas passagens do Novo Testamento parecem negar explicitamente a posição pós-milenista.

 

D. Uma consideração dos argumentos em favor do pré-milenismo

A posição defendida neste livro é o pré-milenismo histórico. Os argumentos contra a posição pré-milenista foram apresentados em sua essência nos argumentos em favor do amilenismo e do pós-milenismo, e assim não serão repetidos numa divisão separada, mas se considerarão as objeções incidentais ao longo da discussão.

1. Algumas passagens do Antigo Testamento não parecem caber nem na presente era nem no estado eterno. Essas passagens indicam algum estágio futuro na história da redenção, muito mais grandioso que a presente era da igreja, mas que ainda não parece remover de sobre a terra todo o pecado, rebelião e morte.

2. Também há passagens do Novo Testamento além de Apocalipse 20 que indicam um futuro milênio. Quando o Senhor Jesus ressurreto fala à igreja de Tiatira, diz: “Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; assim como também eu recebi de meu Pai” (Ap 2.26-27).

3. Convém reexaminar Apocalipse 20 tendo por base algumas outras passagens que insinuam ou indicam claramente um período futuro muito mais grandioso que a era presente, mas inferior ao estado eterno. Algumas declarações aqui são mais bem entendidas como referências a um reinado terreno futuro de Cristo anterior ao julgamento por vir.

 

E. O tempo da grande tribulação

A expressão “grande tribulação” vem de Mateus 24.21 (e paralelos), onde Jesus diz: “... porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais”. O pré-milenismo histórico crê que Cristo voltará depois dessa tribulação, pois a passagem continua: “Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá [...] Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória” (Mt 24.29-30). Os argumentos em favor de tal arrebatamento pré-tribulacional são os seguintes:

1. Todo o período da tribulação será um tempo de derramamento da ira de Deus sobre toda a terra. Assim, não seria apropriado os cristãos estarem sobre a terra nessa ocasião.

2. Jesus promete em Apocalipse 3.10: “... eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra”. Essa passagem indica que a igreja será tirada do mundo antes que chegue a hora da provação.

3. Se Cristo retornará após a tribulação e derrotará todos os inimigos, de onde virão os incrédulos necessários para povoar o reino milenar? A posição pré-tribulacionista, porém, imagina milhares de crentes judeus que se tornarão cristãos durante a tribulação e entrarão no reino milenar em corpos não glorificados.

4. Essa posição permite crer que Cristo pode vir a qualquer momento (sua vinda antes da tribulação) e ainda que muitos sinais devem ser cumpridos antes de sua vinda (sua vinda após a tribulação, quando os sinais serão cumpridos).

Em resposta a esses argumentos, é possível levantar os seguintes pontos:

1. Não é coerente com as descrições neotestamentárias da tribulação dizer que todo o sofrimento que ocorre durante esse período é especificamente conseqüência da ira de Deus. Boa parte do sofrimento deve-se ao fato de “se multiplicar a iniqüidade” (Mt 24.12) e ao fato de a perseguição contra a igreja e a oposição promovida por Satanás crescerem muito durante esse período.

2. O fato de Jesus dizer aos crentes fiéis da igreja de Filadélfia (Ap 3.10) que os livrará da hora de provação que recairá sobre todo o mundo não é indício suficientemente forte para dizer que a igreja inteira será tirada do mundo antes da tribulação.

3. Não se pode defender o pré-tribulacionismo dizendo que deve haver algumas pessoas em corpos não glorificados entrando no milênio, porque (segundo a concepção pós-tribulacionista), quando Cristo vier no final da tribulação derrotará todas as forças dispostas contra ele, mas isso não significa que matará ou aniquilará todos eles.

4. A posição pré-tribulacionista não é a única que se harmoniza com as idéias de que Cristo pode voltar a qualquer momento e de que há sinais que precedem seu retorno. A posição apresentada no capítulo anterior – que é improvável mas possível que os sinais tenham-se cumprido – é também coerente com essas idéias.