Milagres

23-10-2011 18:38

A análise do tema dos milagres está intimamente ligada à providência divina, que examinamos no capítulo anterior. Ali argumentamos que Deus exerce um controle abrangente, contínuo e soberano sobre todos os aspectos da sua criação. Este capítulo supõe uma compreensão da discussão da providência e nela se baseará na abordagem da questão dos milagres.

A. Definição

Podemos dar a seguinte definição: milagre é um gênero menos comum da atividade divina, pela qual Deus desperta a admiração e o espanto das pessoas, dando testemunho de si mesmo. Essa definição leva em conta nossa compreensão prévia da providência divina, segundo a qual Deus preserva, controla e governa todas as coisas. Se compreendemos assim a providência, naturalmente evitaremos algumas outras explicações ou definições comuns de milagres.

B. Os milagres como característica da era da nova aliança

No Novo Testamento, os sinais miraculosos de Jesus atestavam que ele provinha de Deus; Nicodemos o reconheceu: “Ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2). A transformação de água em vinho, operada por Jesus, foi um “sinal” que “manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele” (Jo 2.11). Segundo Pedro, Jesus foi “aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós” (At 2.22).

De fato, aparentemente é característico da igreja do Novo Testamento a ocorrência de milagres. No Antigo Testamento, os milagres pareciam ocorrer primordialmente vinculados a um líder eminente por vez, como Moisés, Elias ou Eliseu. No Novo Testamento, ocorre uma explosão súbita e insólita dos milagres no início do ministério de Jesus (Lc 4.36-37, 40-41).

C. Os propósitos dos milagres

Um dos propósitos dos milagres é certamente autenticar a mensagem do evangelho. Isso ficou evidente no próprio ministério de Jesus, pois gente como Nicodemos reconheceu: “Sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2). Isso também se mostrou claro à medida que o evangelho passou a ser proclamado pelos que ouviram Jesus, pois, quando pregavam, Deus dava “testemunho juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade” (Hb 2.4).

D. Estavam os milagres restritos aos apóstolos?

1. Uma concentração incomum de milagres no ministério dos apóstolos.
Alguns já argumentaram que os milagres estavam restritos aos apóstolos, ou aos apóstolos e às pessoas intimamente ligadas a eles. Antes de considerar seus argumentos, é importante observar que há algumas indicações de que uma admirável concentração de milagres caracterizava os apóstolos como representantes especiais de Cristo.

2. Quais são os “sinais de um apóstolo” em 2Coríntios 12.12?
Por que então alguns argumentam que os milagres eram sinais exclusivos que distinguiam os apóstolos? Seu argumento se baseia principalmente em 2Coríntios 12.12, onde Paulo diz: “As marcas de um apóstolo – sinais, maravilhas e milagres – foram demonstradas entre vocês, com grande perseverança” (2Co 12.12). Ao ponderar essa questão, é importante lembrar que na passagem-chave usada para estabelecer esse argumento, na qual Paulo fala dos “sinais de um verdadeiro apóstolo” em 2Coríntios 12.12 (rsv), ele não está tentando provar que é um apóstolo que se distingue de outros cristãos que não são apóstolos. Antes, tenta provar que é um verdadeiro representante de Cristo, ao contrário dos “falsos apóstolos” (2Co 11.13), falsos representantes de Cristo, servos de Satanás que se disfarçam de “ministros de justiça” (2Co 11.14-15).

3. A definição restritiva de milagres proposta por Norman Geisler.
Uma tentativa mais recente de negar que milagres ocorram hoje foi empreendida por Norman Geisler. Ele tem uma definição muito mais restritiva de milagre do que a apresentada neste capítulo e usa essa definição como argumento contrário à possibilidade da existência de milagres contemporâneos. Diz Geisler que “os milagres (1) são sempre bem-sucedidos, (2) são imediatos, (3) não têm recaídas e (4) confirmam o mensageiro de Deus” (pp. 28-30). Ele encontra sustentação para essa tese principalmente no ministério de Jesus, mas quando vai além da vida de Jesus e tenta demonstrar que outros que tinham o poder de operar milagres jamais falharam, sua tese torna-se muito menos convincente.

4. Hebreus 2.3-4.
Outra passagem que às vezes se usa para sustentar a idéia de que os milagres estavam limitados aos apóstolos e às pessoas intimamente ligadas a eles é Hebreus 2.3-4. Ali o autor diz que a mensagem da salvação, “tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram; dando Deus testemunho juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade”.

5. Conclusão: estavam os milagres restritos aos apóstolos?
Se o ministério no poder e na glória do Espírito Santo é característico da era da nova aliança (2Co 3.1-4.18), então nossa expectativa seria justamente o contrário: esperaríamos que a segunda, a terceira e a quarta gerações de cristãos, que também conheceram a Cristo e o poder da sua ressurreição (Fp 3.10), que estão continuamente se enchendo do Espírito Santo (Ef 5.18), que são participantes de uma luta que não é terrena, mas que se desenvolve com armas que têm o poder divino de destruir fortalezas (2Co 10.3-4), que não receberam espírito de covardia, “mas de poder, de amor e de moderação” (2Tm 1.7), que são fortes no Senhor e na força do seu poder e que vestiram toda a armadura de Deus a fim de poder fazer frente aos principados e potestades, às forças espirituais do mal nas regiões celestes (Ef 6.10-12), também teriam a capacidade de ministrar o evangelho não somente em verdade e amor, mas também com as respectivas demonstrações miraculosas do poder de Deus.

E. Os falsos milagres

Os mágicos do faraó foram capazes de operar alguns falsos milagres (Êx 7.11, 22; 8.7), embora logo depois tenham sido obrigados a admitir que o poder de Deus era maior (Êx 8.19). Simão, o mágico da cidade de Samaria, assombrava as pessoas com suas mágicas (At 8.9-11), ainda que os milagres realizados por intermédio de Filipe fossem muito maiores (At 8.13). Em Filipos, Paulo encontrou uma moça escrava “possessa de espírito adivinhador, a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus senhores” (At 16.16), mas Paulo repreendeu o espírito, que dela saiu (At 16.18). Além disso, Paulo diz que quando o iníquo vier, virá “com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem” (2Ts 2.9-10), mas aqueles que os aceitarem e forem enganados o farão “porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos” (2Ts 2.10). Isso indica que aqueles que operarão falsos milagres no final dos tempos pelo poder de Satanás não falarão a verdade, mas pregarão um falso evangelho.

F. Será que os cristãos devem buscar milagres hoje?

Uma coisa é dizer que os milagres podem acontecer hoje. Outra bem diferente é pedir milagres a Deus. Será correto então que os cristãos peçam que Deus opere milagres?
A resposta depende do motivo pelo qual se buscam os milagres. Certamente é errado buscar poderes miraculosos para aumentar a fama ou o poder próprios, como o fez o mágico Simão; Pedro lhe disse: “... o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, da tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o intento do coração” (At 8.21-22).

É também errado buscar milagres por mera diversão, como o fez Herodes: “Vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal” (Lc 23.8). Mas Jesus nem sequer quis responder às perguntas de Herodes.

É ainda errado que descrentes céticos busquem milagres simplesmente a fim de encontrar motivos para criticar os que pregam o evangelho.

 

Grudem, Wayne; Teologia Sistemática; Edições Vida Nova; São Paulo