MATRIX - O Budismo Virtual de Hollywood

17-12-2010 22:27


Neo, Trinity, Oráculo, Morpheus, agente Smith e os Gêmeos. Esses personagens parecem ter saltado do universo fictício da superprodução do filme Matrix para a nossa realidade. Eles estão em toda parte. Ocupam as principais manchetes. Encontram-se estampados em camisetas, bonés, outdoors, adesivos. Estão na Internet e em diversos games. Conquistaram espaço na cenografia da vida pós-moderna. A onda atual da indústria cinematográfica se transformou na própria cultura comandada por algo chamado inteligência artificial que dita moda, valores e padrão de vida e está consumindo e rendendo milhões de dólares ao capital hollywoodiano. A adesão a essa grande produção cinematográfica é impressionante.

A trilogia1 Matrix dos irmãos Larry e Andy Wachowski, iniciada em 1999, mistura inteligência artificial, filosofia, ciência futurista, artes marciais e zen-budismo. O primeiro filme da série ganhou quatro Oscars e foi o primeiro DVD a vender um milhão de cópias. Rendeu à Warner a arrecadação recorde de 458 milhões de dólares (a maior arrecadação da Warner até aqui). Calcula-se que os outros dois filmes da seqüência (Reloaded e Revolutions) tenham consumido um orçamento de trezentos milhões de dólares, cem milhões só em efeitos especiais. O segundo filme ainda em cartaz nos cinemas, já foi assistido por mais de quatro milhões de pessoas no mundo inteiro. Só no Brasil já são quase um milhão de telespectadores.

Simultaneamente, também foram lançados o desenho animado japonês Animatrix (em DVD e VHS), com nove episódios, e o game Enter the Matrix, que requer no mínimo 26 horas de jogo para se chegar ao final. Trata-se de uma espécie de interatividade progressiva que conta com sons e imagens tirados diretamente do set2 de filmagem.

O que é Matrix?

A exemplo de outros grandes clássicos da ficção científica, como: 2001 — Uma odisséia no espaço3, Guerra nas estrelas4, Blade Runner — O caçador de andróides5, Exterminador do futuro6, Vingador do futuro7 e O senhor dos anéis8 a trilogia Matrix também abre diversas discussões filosóficas e religiosas. O filme trata de um futuro em que as máquinas se tornaram auto-suficientes e venceram os homens numa grande batalha mundial. Exceto um grupo de pessoas que escaparam e vivem miseravelmente numa cidade subterrânea, a humanidade toda é mantida cativa em uma espécie de “prisão mental” que simula a realidade, denominada Matrix.

O filme começa a se desenrolar de fato quando o hacker9 Neo (personagem do ator Keanu Reeves), ajudado por Morpheus (papel interpretado pelo ator Laurence Fischburne), líder da rebelião que luta contra o domínio das máquinas, descobre que está vivendo num mundo de sonho, numa realidade virtual (ou seja, num software). De posse da verdade de que tudo não passa de uma ilusão, ele começa a lutar para escapar do “sistema”.

Para Morpheus, Neo é uma espécie de Bodhisattva (Buda — o iluminado), um messias que se desperta para salvar a humanidade.

Com uma técnica avançadíssima de captura de imagem que transporta cenas do mundo real ao ambiente virtual, colocando-a à disposição das instruções dos diretores, e com doses pesadas de efeitos especiais e alta tecnologia digital (Cerca de 95% das cenas do filme são digitalizadas), Matrix vem sendo considerado a grande inovação em termos de cinema da atualidade.

A era da cibercultura preocupa

Outro aspecto relevante ao analisarmos este assunto é o modo como a interatividade10 avançou velozmente nestes últimos anos com a chegada da cibercultura11. A produção de Matrix dos irmãos Larry e Andy Wachowski investiu pesado nestes recursos para dar o máximo de realismo às cenas virtuais. Pierre Lévy, especialista em cibercultura, mostra que o curso desta interatividade visa a nossa imersão total, por meio dos cinco sentidos, em “mundos” virtuais cada vez mais realistas, também conhecidos como “universos paralelos”. Por esse processo, o telespectador é convidado a passar para o outro lado da tela e a interagir de forma sensório-motora com seus ídolos-atores, provocando uma espécie de osmose, fenômeno físico/químico produzido quando o solvente de uma solução consegue passar para uma membrana impermeável.

A psicóloga clínica Marlene Mayhew constatou sobre essa cultura cibernética que só nos Estados Unidos já são onze milhões de adolescentes on-line vivendo boa parte do seu dia num cenário virtual como salas de bate-papo, jogos etc. Trata-se de um ambiente que a grande maioria das pessoas de uma geração anterior desconhece. A psicóloga pergunta: “Não é sintomático que o computador seja instalado justamente em seus quartos?”. O resultado disso são crianças cada vez mais alienadas do mundo real, com sérios problemas de relacionamentos.

De fato, após quase duas horas sentado em frente à tela, o telespectador mistura sua realidade com a de Matrix, e questiona se a sua vida não é realmente um jogo, se não está sendo ingenuamente controlado por alguma “mente” superior. É exatamente neste ponto que é semeada a mensagem budista do samsara, que ensina que nada é real e que tudo que vivemos não passa de um sonho projetado pela nossa mente dominado por nossos desejos naturais. Assim, Matrix pode ser visto como uma espécie de novo porta-voz do budismo digitalizado de Hollywood, por meio do qual a maioria dos seus astros professa filosofias orientais.

Síntese histórica e a ação missionária budista

A origem do budismo é descrita por diversas tradições e lendas. De acordo com o livro O Sentido da Vida, Dalai Lama12, Sidarta Gautama, o Buda, “nasceu, ao que parece, numa família real indiana por volta de 560 a.C., em Kapilavastu, na parte noroeste da Índia, no atual Nepal. Seu pai era o rajá (governador) de um pequeno principado. Abandonou a vida principesca e partiu em retiro em 524 a.C., tornando-se iluminado, segundo se crê, em 518 a.C. Morreu em 483 a.C.”. A tradição budista admite que, além de Sidarta Gautama, outros Budas tenham vivido sem se darem a conhecer. Todo aquele que busca a iluminação e depois de consegui-la dedica-se em salvar o próximo torna-se Bodhisattva (Buda).

As duas ramificações principais do budismo são: Therevada e Mahayana. A primeira escola, mais restrita à Índia, afirma que a iluminação está disponível a alguns dedicados discípulos. A segunda escola, que se tornou popular em todo o mundo (especialmente na China e no Japão), é mais liberal e, por isso, mais atrativa para as outras culturas. Ela franqueia a salvação a todos aqueles que se aproximam.

Sidarta Gautama não deixou nenhum registro escrito de seus ensinos. Eles foram transmitidos por tradição oral. Somente no século 1 a.C., na Ilha do Ceilão, é que foram redigidas as primeiras escrituras budistas. Atualmente, o budismo possui três grupos de livros sagrados principais: o Tripitaka, organizados em três cestos: a autodisciplina, o sermão de Buda e doutrinas. Para os budistas, Jesus foi um Mestre budista vindo do Tibete e da Índia, um iluminado, a mesma versão divulgada pela Nova Era13.

Ora, se consideram Jesus um iluminado, por que não aceitam e seguem a sua doutrina?

Mas não. Ensinam e apregoam seus próprios ensinos sob a ótica budista que chamam de “os oito nobres caminhos”: crença correta, sentimentos corretos, fala correta, conduta correta, modo de vida correto, esforço correto, memória correta, meditação correta e concentração correta.

Hoje, o budismo vive sua terceira onda de crescimento. Em todo o mundo há tantos budistas quanto protestantes, algo em torno de quinhentos milhões de pessoas. Isso sem considerar suas variações e seitas surgidas a partir dos conceitos de Buda, tais como: Nova Era, Jodo, Jodo Shin, Nichiren, Shingon, Tendai, Zen, entre outras.

Só no Brasil são mais de trezentos mil budistas, quase 3% da população, superando o judaísmo e o islamismo, entre outras novas religiões orientais. Em Três Coroas (RS) foi construído o maior monastério budista da América Latina. Não é por menos que o maior missionário do budismo moderno, Dalai Lama, com seu livro A arte da felicidade, figura nas listas dos dez mais vendidos, há três anos, mais ou menos. Dalai Lama já visitou o Brasil duas vezes e reuniu, em suas palestras, mais de quinhentas mil pessoas.

A conspiração silenciosa

Como visto, nosso propósito aqui não é discutir o cinema como entretenimento, se o cristão deve ou não freqüentá-lo, se deve ou não assistir a um filme. O que nos preocupa é o seguinte: muitas produções cinematográficas trazem doutrinas heréticas e ocultistas, disseminado-as silenciosamente, como, por exemplo, a série Harry Potter, abordada em duas edições de Defesa da Fé. Infelizmente, muitos cristãos ainda não possuem discernimento bíblico para agir conforme recomenda a Palavra de Deus: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal”(Hb 5.14).

O renomado apologista cristão Norman Geisler comenta que a conhecida série Guerra nas estrelas está impregnada de uma latente e perniciosa visão cósmica, gnóstica e oriental. Na biografia de George Lucas, produtor da obra, consta que o seu conceito sobre a “Força” foi fortemente influenciado pela obra Tales of Power, de Carlos Castaneda, e pelo índio e adivinho mexicano Don Juan, que usa este conceito “força da vida”.

Um exemplo claro de como cinema e religião eventualmente se unem, e que idéias lançadas por certos filmes podem formar grupos heréticos, é o caso da “Religião da Força” ou “Religião de Jedi”, como se autodenominam os adeptos da seita que se organizou na Austrália a partir da febre Star Wars. Segundo um censo do governo, 0,37% da população do país (ou seja, setenta mil pessoas) declarou que segue os “cavaleiros de Jedi”.

Já com Matrix, os irmãos Wachowski disseram, em recente entrevista, ser simpatizantes do budismo e quiseram colocar elementos da doutrina na trilogia. Apesar de explorarem símbolos e nomenclaturas cristãs: Trinity (Trindade), Neo (Messias), Zion (Sião), Apoc (Apocalipse), Nabucodonosor (nave pilotada pelos rebeldes) e mitologia grega: Morpheus (deus grego do sonho), os produtores usaram especialmente o budismo como pano de fundo para a concepção desse projeto.

As artes marciais chinesas, coreanas e japonesas, bastante exploradas na trilogia, têm forte influência do zen-budismo — inclusive a primeira delas teve como fundador o mesmo homem que fundou o zen-budismo na China, Bodhidharma. Não surpreende, então, que as respectivas práticas partam do mesmo princípio de integração corpo-mente. É exatamente isso que propõe o filme: a única coisa que coexiste entre o real e o virtual é a mente. Os diálogos apresentam conceitos semelhantes aos encontrados na biografia de Hui-Neng (Enô), o Sexto Patriarca Zen da China (638-713). Exemplo: Neo (no primeiro filme) encontra uma criança com trajes de monge budista que entorta uma colher com a mente. “Não é a colher que entorta”, diz a criança, “mas você”.

Esta colocação assemelha-se àquela feita por Hui-Neng a um monge budista: “Não é o vento que move a bandeira, é a mente de vocês”. Há, ainda, trechos semelhantes à biografia do próprio Siddharta Gautama, o Buda. Nela, Shunryu Suzuki ensina que na Mente Zen há diferença entre conhecer e trilhar o caminho, e que nossa vida e nossa mente são a mesma coisa. Esta crença está alicerçada no panteísmo, que ensina que Deus se acha difundido em todas as coisas e que somos parte dele. Já o cristianismo define esta relação apontando para a distinção existente entre o Criador e a criatura. Ora, assim como um pintor não é a pintura, e não morre se ela for destruída, Deus também está além da obra da criação.

A doutrina do samsara

O samsara consiste no círculo de nascimento, sofrimento, morte e renascimentos sucessivos (reencarnações) com o fim de desenvolver a compreensão plena (do eu e do mundo) denominada iluminação ou despertar de Buda até atingir o nirvana. O caminho para a transcendência é, por fim, alcançado com a busca pessoal pela iluminação. No caso de Matrix (o filme), o personagem Neo persegue esse caminho.

A idéia budista do samsara baseia-se em duas crenças antibíblicas principais: o carma e a reencarnação. No filme, a idéia de carma e reencarnação é expressa pelo Oráculo, que diz a Neo que ele talvez descobrisse seu dom na “próxima vida”. A Bíblia ensina a ressurreição, e não a reencarnação, descartando a idéia do carma. Analisemos os seguintes pontos:

1. Segundo a Bíblia, o tempo da vida terrena é suficiente para que nos responsabilizemos por nossas ações (Ec 9.4; Sl 90; Hb 4.7; Lc 23.42-43). Por que o ladrão da cruz não precisou reencarnar para evoluir e ser salvo? Pense: Se houvesse reencarnação, para que existiria a necessidade do perdão? O perdão tira a condenação do pecado (1Jo 1.7,9; Rm 8.1; Lc 23.39-44). Por que deveríamos pagar com o sofrimento num mundo ilusório aquilo que já foi perdoado? (Mq 7.18-20, Hb 10.1). Se Deus, quando nos arrependemos, se esquece dos nossos pecados do passado, no mínimo seria tolice pagar por eles em reencarnações sucessivas (Is 43.25).

2. Ao homem está ordenado morrer apenas uma vez, vindo depois disto o juízo, e só há dois lugares após a morte (Hb 9.27, Lc 16.19- 31; Jo 3.17, 18). Quem partiu não retorna à vida (Ec 9.4-5; 2Sm 12.22-23). Qual é o sentido da reencarnação se o “eu” responsável pelas ações da vida anterior foi apagado com a morte? Como o carma pode ser verdade se a pessoa não se lembra dos erros da suposta vida passada? Isso comprova a impossibilidade do próprio samsara ser um meio de pagar pelos erros. Segundo a Bíblia, Jesus é o único que pode nos libertar do pecado (Jo 8.24, 34-36). Acaso a dor que sentimos, as doenças, os atropelamentos, o câncer, a AIDS, são pura ilusão? Não seria um absurdo sustentar tal crença budista e pagar por uma coisa sem ao menos saber do que se trata ou apenas por uma projeção da realidade? (Ec 11.9; At 10.42).

3. A Bíblia só fala em ressurreição (1Cor 15; Jo 11.25-26). Jesus ressuscitou em corpo glorificado (Lc 24.37-39). Analise a incoerência do budismo: ensina que na reencarnação a pessoa perde a identidade da vida anterior. É como se a vida passada simplesmente se desintegrasse no tempo pela necessidade de assumir novas personalidades. A pessoa, portanto, é engolida pelo cosmo e acaba virando nada (nirvana). Isso não faz sentido! Que propósito teria a vida, então? Ao contrário, Deus nos ama e leva em conta a nossa identidade. Você é um ser único. Na ressurreição, a nossa identidade será mantida, ou para a vida eterna ou para a perdição eterna (Dn 12.2-3).

Outro aspecto do conceito budista expresso no filme (que tenta passar a idéia de que a nossa vida é uma grande ilusão montada pelos nossos próprios desejos) afirma o seguinte: você, eu e o universo formamos um todo indivisível (isso é monismo — Deus é tudo e tudo é Um). Ver a nós mesmos como uma parte separada do resto é a fonte da ilusão do “eu”, e a mesma ilusão ocorre em relação ao mundo em redor.

Para o budismo, aquilo que percebemos do mundo é apenas uma fração dele. Nossa mente e nossos sentidos condicionam e limitam nosso entendimento e nossa relação com o mundo. Cypher, personagem do primeiro filme Matrix, diz, ao comer um bife: Eu sei que este bife não existe. A ignorância é uma bênção. Sejamos coerentes! Na verdade, se o mundo é realmente ilusório, como poderíamos distinguir entre fantasia e realidade, pelo menos conceitualmente? Lao Tse expressa bem esta pergunta: “Se quando estava dormindo eu era um homem sonhando que era uma borboleta, como sei que quando estou acordado não sou uma borboleta sonhando?”.

Podemos também concluir que o budismo é autodestrutivo. Vejamos. Segundo um dos aspectos do que significa samsara, tudo o que vivemos não é real. Então, tudo o que o budismo prega (sua história, seus personagens, inclusive o samsara) também não é real. Os budistas, ao que parece, estão caindo no mesmo erro do ceticismo, teoria filosófica contraditória que declara que: “Não se pode ter certeza de nada absolutamente!”. Ora, então como podem ter certeza de que a filosofia que pregam é certa? O mesmo dilema vivido pelo cético, de ser condenado por sua própria alegação, poderia, neste caso, ser aplicado aos budistas.

Quão diferentemente vive e crê o cristão! Disse o apóstolo Paulo: “Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos”(At 17.31; grifo do autor).

O nirvana, a salvação e a Bíblia

Somente atingindo o nirvana (céu budista), o homem fica livre do samsara. O nirvana é a extinção do ser, uma auto-extinção, quando toda idéia de personalidade individual cessa. Imagine: assim como o caldo de galinha se dissolve na sopa, assim também o ser humano, no final, será diluído como tempero cósmico no nada (o nirvana). “A salvação final, na concepção budista, está relacionada à individualidade da pessoa, e não da própria pessoa, como acreditam os cristãos”, diz Norman Geisler. Esse conceito é uma grande desesperança quando comparado com a fé cristã (Ef 1.4-5).

Há três estágios no filme Matrix que reforçam a idéia do ciclo existencial até o nirvana. O primeiro é a vida de Neo como Thomas Anderson. O segundo é o despertar de Neo para a vida real no casulo de Matrix. E o último é a “morte” de Neo nos dois mundos e seu ressurgimento como alguém capaz de reprogramar Matrix.

Um ponto muito enfatizado no zen-budismo é que a experiência pessoal é o único jeito de atingir a iluminação, enfocado no filme por Morpheus, quando ele diz a Neo: Você tem de ver por si mesmo. Eu não disse que seria fácil, Neo. Esta observação está ligada a Shnryu Suzuki (1905-1971). O aspecto fundamental do caminho para o nirvana é a eliminação de todo pensamento dualista. E a raiz de tal pensamento é a lógica. Nesse caso, é necessário quebrar as cadeias da lógica e abordar a vida a partir de um novo ponto de vista.

Para o cristão, o seu futuro não é uma condição de união ou absorção final por alguma essência impessoal, mas uma continuidade pessoal e consciente no céu com Cristo: “Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20). Devemos sempre nos lembrar de uma coisa: assim como o céu, o inferno também é real! (2Pe 2.4, 9; Ap 20.10, 15).

Conclusivamente, o zen-budismo é a ramificação do budismo difundida na trilogia de Matrix. Nela, a prática do zen-budismo tem o propósito de alcançar o mesmo nirvana. Segundo Norman Geisler, o zen-budismo é a forma mais influente do budismo difundida atualmente. Suas origens são encontradas em Tão-Sheng (360-434 d.C.), um budista mahayana, e em Bodidarma (m. 534 d.C.). Tão-Sheng migrou da China para o Japão, onde sua forma de budismo foi mesclada com o taoísmo, que enfatiza a união com a natureza (panteísmo). Essa mistura eclética é conhecida por zen (meditação).

No zen-budismo, Deus é homem e o homem é Deus (panteísmo). Além de o homem ser Deus, tudo é Deus e Deus é tudo. Tudo e todos são Um (monismo). Budas (pessoas iluminadas) e seres sensitivos surgem da mente única, e não há outra realidade além desta mente. O que existe de fato é a Mente, o resto é ilusão. Em seu livro, O sentido da vida, Dalai Lama defende a crença de que cada um de nós esteve ou está no estado de existência cíclica cármica. Essa idéia fica clara no filme por meio de uma rede de computadores que liga as percepções das pessoas, aprisionando-as.

A crença em Deus como energia

Por terem heranças panteístas do hinduísmo, os budistas refutam a idéia de um Deus pessoal. Deus é apenas uma energia. Para C. S. Lewis, “trata-se de um credo não tanto falso como desesperadamente atrasado no tempo. Antes da criação teria sido verdade dizer que tudo era Deus. Mas Deus criou: Ele fez as coisas serem outras além dele mesmo a fim de que, sendo distintas, elas pudessem aprender a amá-lo”. “Deus é a fonte de toda a faculdade de raciocinar: não poderíamos estar certos e ele errado, assim como a corrente da água não pode estar acima da nascente; é como cortar o galho onde estamos sentados” (Sl 113.5-6; Is 40.12-31).

A Bíblia enfatiza que Deus é antes de todas as coisas: “E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1.17; Sl 90.2), e que todas as coisas foram criadas por ele (Gn 1.1; Is 42.5). O termo criar designa que “há um abismo intransponível entre o criador e a criatura, e que um estará sempre oposto ao outro numa relação que jamais será alterada. Não existe senso maior de distância do que o que há entre as palavras Criador e criatura” (Jo 3.16; Rm 8.15; 1Jo 3.1; Jo 1.12; 1Jo 4; Rm 5.8; Gn 1.26,27; Ef 1.4; 2Tm 1.9; Jo 4.24).

Budismo ou cristianismo?

Sidarta Gautama, o Buda, foi uma pessoa inconstante. Confuso, deixou a esposa e os filhos e tornou-se um mendigo. Após desiludir-se com o hinduísmo, Gautama foi iluminado debaixo de um pepinal, enquanto meditava. Segundo alguns biógrafos, sua primeira tentativa de ensinar foi um fracasso total. O próprio Dalai Lama diz que Buda “esteve no estado de existência cíclica” devido ao carma. Como alguém assim pode guiar outras pessoas? (Mt 15.14).

Quando uma pessoa busca uma religião, na verdade ela está querendo preencher o vazio que existe em seu coração. Está buscando uma direção para sua vida. Essencialmente, ela quer segurança e felicidade. A busca da felicidade é vista pelos estudiosos como a maior aspiração humana. O próprio Dalai Lama, em seu livro A arte da felicidade, concorda com isso. O que pressupõe que a religião na qual ele se refugiou tenha lhe oferecido tudo isso.

Vejamos então numa simples comparação doutrinária e teológica entre o cristianismo e o budismo em qual dessas duas religiões tais necessidades podem ser alcançadas:

BUDISMO

Buda era filho de um rei humano
Buda precisou ser iluminado
Buda desencarnou para tornar-se um deus
Buda buscou a verdade
Buda viveu
Buda indicou o caminho
Buda cometeu erros
Buda está morto
O homem está só no universo
O destino final do homem deve ser o nada
Reencarnar para pagar pelos erros
O corpo é um mal, um empecilho

CRISTIANISMO

Jesus é o unigênito Filho de Deus (Mc 1.1)
Jesus é a Luz do mundo (Jo 8.12)
Jesus é o Deus verdadeiro (1Jo 5.20)
Jesus é a verdade (Jo 14.6)
Jesus é a Vida (Jo 1.4)
Jesus é o Caminho (Jo 14.6)
Jesus nunca pecou (1Pe 1.19)
Jesus ressuscitou e é eterno (1Co 15.1-8; Hb 7.24)
Deus chama os homens de filhos (Rm 8.15)
O destino final do homem deve ser o céu (Jo 6.39)
Arrependimento e perdão para ser salvo (2Pe 3.9)
Corpo como templo da glória de Deus (1Co 6.20)

Alerta! Estamos diante de uma sabotagem

Como dito anteriormente, o nosso propósito aqui não é condenar as grandes produções cinematográficas. Antes, apontar o que Deus pensa de certos conceitos que os autores conscientes ou inconscientemente, tem introduzido na cultura mundial. O próprio J. R. R. Tolkien, de O senhor dos anéis, confirma que “o autor não consegue evitar que a obra seja afetada por sua própria experiência”. Alem disso, é preciso alertar que, na pos-modernidade, os veículos culturais (TV, Internet, cinema), de acordo do Israel Belo de Azevedo, configuram a própria cultura que precisa ser confrontada com a Bíblia (Tg 4.4; 1Jo 2.15; Rm 12.1-2).

Para J. R. Stott, “somos diferentes de tudo no mundo que não é cristao e esta contracultura crista é a vida do reino de Deus”. H.R. Niebuhr defende que a Bíblia apresenta Cristo como o transformador da cultura. A questão aqui é o budismo, misturado ao gnosticismo, disseminado pela cultura cinematográfica. Entendemos biblicamente que toda da cultura de um povo é em boa e em parte ma. É assim porque a “queda” manchou toda a humanidade (R3.23). Por isso devemos sempre julgar todas as atitudes humanas e prová-las pelas Escrituras. Somente pela atuação poderosa do Espírito Santo o homem pode ser redimido e transformado para a gloria de Deus.

Na verdade, a falta de absolutos da cultura pos-moderna transformou-a em solo fértil para a proliferação daninha, informatizada e virtualizada de correntes filosóficas orientais e culturais claramente heréticas, o que tem cooperado, e muito, para o avanço da apostasia, sobretudo por causa do pluralismo. A historia fictícia de Frankenstein ilustra bem o pluralismo. Criado com pedaços de diferentes corpos, o pluralismo ensina que a verdade é composta por vários “corpos doutrinários”.

É bom lembrar, porem, que, na historia de Frankenstein, a criatura se volta contra o seu criador. Esta visão pluralista propaga que, alem do cristianismo, o budismo, entre outras religiões, tem a verdade. Ou seja, são apenas caminhos diferentes que levam ao mesmo fim. Ora, quem caminhar para o sul jamais chegara ao norte. Se o céu fica em cima, o inferno esta embaixo (Pv 15.24).

O caminho do céu é para cima. E somente Jesus pode nos conduzir até lá.

O significado dos termos e nomes usados em Matrix

Arquiteto: Quando Buda atingiu a iluminação e se libertou das ilusões do samsara, consta que ele teria exclamado: “Apanhei-te, Arquiteto. Nunca mais tornarás a construir”. De acordo com a filosofia budista, ele estava se referindo ao ego, criador da pseudo-realidade em que vivemos mergulhados. Os maçons, por outro lado, referem-se a Deus como o Grande Arquiteto do Universo. Quando você sobrepõe as duas referências, tem como resultado uma figura com atributos divinos que cria um mundo ilusório. Exatamente como demiurgo (Deus grego que cria o Universo, organizando a matéria preexistente) no gnosticismo ou o Arquiteto em The Matrix Reloaded.

Chaveiro: Na simbologia esotérica, as chaves representam a iniciação e, conseqüentemente, a habilidade que o iniciado possui para abrir e se deslocar por entre diferentes níveis da realidade. É por esse motivo que figuras como o São Pedro cristão ou o Janus da mitologia romana são representadas como portadoras da chave. É essencialmente esse o papel que o Chaveiro representa no filme, já que é graças às suas chaves que Neo ganha acesso ao coração de Matrix, onde encontra o Arquiteto. Curiosamente, entre os ciganos, acredita-se que sonhar com um molho de chaves, como o que o Chaveiro carrega, é sinal de que várias oportunidades surgirão para o sonhador, que deve escolhê-la com cuidado, da mesma forma que Neo agiu quando se deparou com a porta que o conduziria ao centro de Matrix e a presença do Arquiteto.

Gêmeos: Todas as mitologias pos-suem lendas a respeito dos gêmeos, que podem ser divinos ou demoníacos. Muitas vezes, um dos gêmeos é benévolo e o outro, maligno, ou um deles é mortal e o outro, imortal, como Castor e Pólux, na mitologia grega. A grande maioria dos povos indígenas, nas três américas, considera os gêmeos divinos como os criadores do mundo. Em Matrix Reloaded, eles são apresentados sob um aspecto claramente negativo, mas (por serem auxiliares de Merovíngio, cujo simbolismo é bem mais ambíguo), podem ocultar algumas surpresas.

Haman, conselheiro: Apesar de o personagem ser apresentado sob uma luz simpática e benevolente — quase uma encarnação do Velho Sábio, cujo papel no primeiro filme cabia a Morpheus. Na Bíblia, Haman é o grande vilão do Livro de Ester. Grão-vizir do rei persa Xerxes, Haman odiava os judeus (Zion é uma referência a Sião) e tramava secretamente para exterminá-los. O plano foi descoberto por Ester, que o denunciou ao rei. Haman foi enforcado e o tio de Ester, Mordecai, nomeado grão-vizir em seu lugar. Trata-se, portanto, de um traidor.

Seraph: Embora o guardião do Oráculo tenha a aparência de um oriental, seu nome é hebraico e significa “ardente, flamejante”. É a raiz de serafim que, na teologia, é uma das ordens na hierarquia dos anjos. Na Bíblia, os serafins são descritos no livro de Isaías como criaturas dotadas de seis asas e que se postam diante do trono de Deus, igualmente como os guardiões.

Persephone: Assim como os Mistérios de Ísis, os Mistérios de Elêusis, na Grécia antiga, também exerceram enorme influência no surgimento do gnosticismo. Dedicados à deusa grega Deméter, os rituais de Elêusis rememoravam a peregrinação dessa divindade pelo mundo em busca da filha Perséfone, seqüestrada por Hades, o Senhor dos Infernos, que a levou para o mundo subterrâneo e tomou-a por esposa. Foi da filha de Deméter que a mulher do Merovíngio emprestou seu nome, o que faz do próprio Merovíngio um equivalente do Hades grego. O mundo subterrâneo onde se localizava o Hades, por sua vez, remete ao mundo subterrâneo onde se localiza Zion, em Matrix.

Notas:

1 Conjunto de três obras ligadas entre si por um tema comum
2 Ambiente criado para gravação dos filmes
3 2001 - A Space Odyssey, de Stanley Kubrick, 1968
4 Star Wars, de George Lucas, 1977
5 Blade Runner, de Ridley Scott, 1982
6 Terminator 1, de James Cameron, 1984
7 Total Recall, de Paul Verhoeven, 1990
8 The Lord of the Rings, de J.R.R.Tolkien, 2001
9 Profissional altamente especializado em computação
10 Capacidade de sistema de comunicação ou de computação de interagir com pessoas
11 Fenômeno surgido com a era digital, constituída por entidades e ações puramente virtuais, em que seres humanos, máquinas e programas computacionais interagem
12 Editora Martins Fontes,
13 V. matéria “Jesus dos doze aos trinta anos”, Defesa da Fé, ed. 56, maio/2003

ANDRÉ, M. Laços da Nova Era. BH, Betânia.
AMORESE, R. M. Icabode. SP, Abba Press, 1993.
AZEVEDO, Israel Belo de. Olhar da incerteza. SP, Eclésia, 1998.
DALAI-LAMA. Minha terra e meu povo. RJ, Sextante, 2001, p. 268.
DALAI-LAMA, O. O sentido da vida. São Paulo, Martins Fontes, 2002, p. XII.
GEISLER, N., AMANO, J. Y. Reencarnação. São Paulo, Mundo Cristão, 1994, p. 15
GEISLER, Norman. Fundamentos inabaláveis. SP, Vida, 2003, p.45-6.
GEISLER, N. Enciclopédia apologética. SP, Vida, 2002, p. 932.
LAUSANE. O Evangelho e a cultura. SP, ABU, 1978, p. 17.
LEWIS, C.S. Cristianismo puro e simples. SP, ABU, 1985, p. 27.
LEWIS, C.S. Cartas do diabo ao seu aprendiz. Petrópolis, Vozes, 2000, p. 134.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. SP, Ed. 34, 1999, p. 260.
LEVY, Pierre. A ideografia dinâmica. SP, Loyola, 1998, p. 228.
NICHOLLS, B. C. Contextualização: uma teologia do evangelho e cultura. VN, 1987.
NIEBUHR, H. RICHARD. Cristo e cultura. RJ, Paz e Terra, 1967, p. 293.
SMITH, M. E. O senhor dos anéis e a Bíblia. SP, Mundo Cristão, p. 145.
STRONG, A. H. Teologia sistemática. SP, Hagnos, 2003, Vol. 2, p. 139.
STOTT, J. R. A mensagem do sermão do monte. SP, ABU, 1985, p. 6.
TOLKIEN, J.R.R. O senhor dos anéis. SP, Martins Fontes, 2002, p. XV
Revista dos curiosos. Especial magia. Ano 1, n. 2
Revista Época, n. 260, 12 de maio de 2003.
Revista Set, ed. 191, março de 2003.
Revista Herói especial 5.
Revista Superinteressante, Ed. 188, maio de 2003.
Revista Veja, 23 de junho de 1999.
Revista Veja 14 de maio de 2003.

 

Por Edno Luiz de Melo