Líder religioso cubano morto no Rio teria sofrido ameaça

02-02-2011 21:32

O jornalista cubano Rafael Zamora Díaz, de 51 anos, presidente e fundador da Sociedade de Ifá e Cultura Afro-Cubana no Brasil, foi assassinado a tiros na noite de ontem, quando estacionava o seu Meriva ao chegar em casa, no Cosme Velho, zona sul do Rio. Em meados do ano passado, o líder religioso teria procurado a Assembleia Legislativa, o Ministério Público (MP) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para entregar um dossiê detalhando ameaças que vinha recebendo.

A deputada estadual Cidinha Campos (PDT) confirmou hoje que Díaz foi recebido em seu gabinete, acompanhado de um advogado, no segundo semestre de 2010. "Foi durante a campanha, não o encontrei pessoalmente, ele foi recebido pelo meu chefe de gabinete. Na ocasião, disse que sofria perseguição religiosa e contou ter procurado a polícia e o MP. Já estava assistido, tinha feito tudo o que eu poderia fazer", declarou Cidinha. O chefe de gabinete da deputada informou que o foco da conversa com o cubano foi a perseguição religiosa, mas acrescentou que "havia embutida a história de alguém traído". "Ele não falava textualmente, mas dava a entender essa preocupação." Segundo parentes da vítima, a motivação do crime teria sido passional.

A OAB do Rio informou que Díaz entregou à Comissão de Igualdade Racial, em agosto de 2010, um "histórico de denúncias de descriminação racial e perseguição religiosa, que ainda está tramitando". Também procurado pela reportagem, o MP não retornou o contato até as 19h. Em processo que tramita em segredo de justiça na 19ª Vara Criminal, Díaz é acusado de crime ambiental por supostos maus tratos a animais em cultos religiosos. Durante essa investigação, uma arma teria sido encontrada na casa dele.

A polícia informou que o cubano foi executado dentro do carro, com sete tiros, por volta das 22 horas de ontem, em uma praça na esquina com a Ladeira dos Guararapes, a cerca de dez metros de sua casa. Ele morreu no local e o assassino fugiu. A Divisão de Homicídios assumiu a investigação. "O dossiê está sob análise. As informações estão sendo checadas para sabermos a real motivação do crime", disse o delegado Felipe Ettore, titular da divisão. O filho do cubano, que morava com ele, prestou depoimento, mas não deu entrevista. O advogado do jornalista não foi localizado pela reportagem.

Díaz morava no Brasil havia pelo menos 14 anos. Ifá é um oráculo que nasceu no Antigo Egito e migrou para a África Ocidental, especialmente para as regiões onde hoje estão localizados a Nigéria e Benin, informa o site da instituição fundada pelo cubano. "Nestas terras encontrou condições de desenvolver-se e estabelecer-se até nossos dias, tendo chegado a Cuba e ao Brasil no século passado com os escravos Nagôs."

 

FELIPE WERNECK - Agência Estado