H. Resposta à postura arminiana

23-10-2011 18:41

Muitos evangélicos julgarão convincentes esses quatro argumentos arminianos. Acharão eles que esses argumentos representam o que intuitivamente sabem sobre si mesmos, seus atos e o modo como o mundo opera, e que tais argumentos são a melhor explicação para a repetida ênfase bíblica na nossa responsabilidade e nas reais conseqüências das nossas decisões. Entretanto, pode-se dar algumas respostas à tese arminiana.

1. Serão essas passagens bíblicas exemplos incomuns, ou descrevem elas o modo como Deus age normalmente?

Em resposta à objeção de que os exemplos do controle providencial de Deus só se referem a casos limitados ou específicos, pode-se dizer primeiro que esses exemplos são tão numerosos que parecem ter como meta nos ensinar os modos como Deus age sempre. Deus não só faz crescer parte da relva; faz toda a relva crescer.

2. Será que a doutrina calvinista da providência divina torna Deus responsável pelo pecado?

Contra a tese calvinista da providência divina (que aceita que os decretos divinos autorizem o pecado e o mal), os arminianos diriam que Deus não é responsável pelo pecado e o mal, pois ele não os determinou nem os causou de modo nenhum.

3. Será que escolhas determinadas por Deus podem ser escolhas legítimas?

Em resposta ao argumento de que escolhas determinadas por Deus não podem ser escolhas legítimas, importa dizer que isso não passa de uma suposição baseada, novamente, na experiência e na intuição humanas, e não em textos bíblicos.

4. Será que uma concepção calvinista da providência incentiva um fatalismo perigoso ou uma tendência de “viver como os arminianos”?

A concepção de providência apresentada acima enfatiza a necessidade da obediência responsável, e por isso não é correto dizer que incentiva a espécie de fatalismo que diz que tudo o que é deve ser. Aqueles que acusam os autores reformados de acreditar nisso simplesmente compreenderam erroneamente a doutrina reformada da providência.

5. Outras objeções à tese arminiana.

Além de responder aos quatro argumentos arminianos mencionados acima, é preciso considerar algumas outras objeções a essa tese.

a. Segundo a concepção arminiana, como pode Deus conhecer o futuro? Segundo a visão arminiana, as escolhas humanas não são causadas por Deus. São totalmente livres. Mas as Escrituras nos dão muitos exemplos de que Deus prediz o futuro e de profecias cumpridas com precisão. Outros arminianos simplesmente afirmam que Deus conhece tudo o que acontecerá, mas isso não significa que ele planejou ou causou o que irá acontecer; significa simplesmente que ele tem a capacidade de enxergar o futuro. O problema dessa posição é que, mesmo que Deus não tenha planejado nem causado o acontecimento das coisas, o fato de serem conhecidas de antemão significa que certamente acontecerão. E isso significa que nossas decisões estão predeterminadas por alguma coisa (seja o destino seja o inevitável mecanismo de causa-e-efeito do universo) e, portanto, continuam não sendo livres no sentido em que os arminianos as desejam livres.

b. Segundo a concepção arminiana, como pode o mal existir se Deus não o quer? Os arminianos dizem bem claramente que o surgimento do mal no mundo não aconteceu segundo a vontade de Deus. Pinnock declara: “A queda do homem é uma eloqüente refutação da teoria de que a vontade de Deus é sempre realizada”. Mas como pode o mal existir se Deus não quis que existisse? Se o mal acontece apesar de Deus não o querer, isso parece negar a onipotência de Deus: ele quis evitar o mal, mas foi incapaz de fazê-lo.

c. Segundo a concepção arminiana, como podemos saber que Deus triunfará do mal? Se voltamos à afirmação arminiana de que o mal não está de acordo com a vontade de Deus, surge outro problema: se todo o mal que hoje existe no mundo surgiu à revelia da vontade de Deus, como podemos ter certeza de que Deus triunfará do mal no fim? É claro que Deus diz nas Escrituras que triunfará do mal.

d. A diferença nas perguntas sem resposta. Como temos compreensão finita, inevitavelmente nos veremos diante de algumas perguntas sem resposta para cada doutrina bíblica. Contudo, acerca desse ponto as perguntas que calvinistas e arminianos deixam sem resposta são bem diferentes. De um lado, os calvinistas se vêem obrigados a dizer que não sabem como responder às seguintes perguntas:

1. Como exatamente Deus pode determinar que pratiquemos voluntariamente o mal, sem ser ele mesmo culpado do mal?

2. Como exatamente pode Deus fazer-nos escolher algo por nossa vontade?
Diante disso, os calvinistas diriam que a resposta deve ser de algum modo encontrada na consciência da infinita grandeza de Deus, no conhecimento do fato de que ele pode fazer bem mais do que jamais conceberíamos possível. Assim, a conseqüência dessas perguntas sem resposta é um aumento de nossa apreciação da grandiosidade de Deus.

 

Grudem, Wayne; Teologia Sistemática; Edições Vida Nova; São Paulo