O Pecado

24-10-2011 18:08

A. Definição de pecado

Podemos partir da seguinte definição: pecado é deixar de se conformar à lei moral de Deus, seja em ato, seja em atitude, seja em natureza. O pecado é aqui definido em relação a Deus e sua lei moral. Inclui não só atos individuais, como roubar, mentir ou cometer homicídio, mas também atitudes contrárias àquilo que Deus exige de nós. Percebemos isso já nos Dez Mandamentos, que não só proíbem ações pecaminosas, mas também atitudes errôneas: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem cousa alguma que pertença ao teu próximo” (Êx 20.17). Aqui Deus especifica que o desejo de roubar ou cometer adultério é também pecado aos olhos dele.

 

B. A origem do pecado

De onde veio o pecado? Como ele penetrou no universo? Primeiro, precisamos afirmar claramente que Deus não pecou e não deve ser culpado pelo pecado. Foi o homem quem pecou, os anjos quem pecaram, e nos dois casos o fizeram por escolha intencional e voluntária. Culpar a Deus pelo pecado seria blasfemar contra o caráter de Deus. “Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto” (Dt 32.4). Abraão pergunta com verdade e força nas palavras: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18.25). E Eliú diz com justiça: “Longe de Deus o praticar ele a perversidade, e do Todo-Poderoso o cometer injustiça” (Jó 34.10). De fato, para Deus é impossível sequer desejar a injustiça: “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13).

C. A doutrina do pecado herdado  

Como o pecado de Adão nos afeta? As Escrituras ensinam que herdamos o pecado de Adão de dois modos.

1. Culpa herdada:

Somos considerados culpados por causa do pecado de Adão. Paulo explica os efeitos do pecado de Adão da seguinte maneira: “Portanto [...] por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim [...] a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). O contexto mostra que Paulo não está falando dos pecados que as pessoas efetivamente cometem no dia-a-dia, pois todo o parágrafo (Rm 5.12-21) trata da comparação entre Adão e Cristo.

2. Corrupção herdada:

Temos uma natureza pecaminosa por causa do pecado de Adão. Além da culpa legal que Deus nos imputa por causa do pecado de Adão, também herdamos uma natureza pecaminosa como conseqüência do pecado dele. Essa natureza pecaminosa herdada é às vezes denominada simplesmente “pecado original”, e às vezes, mais precisamente, “poluição original”. Uso, em vez disso, o termo “corrupção herdada”, pois parece exprimir com mais clareza a idéia em vista.

a. Na nossa natureza, carecemos totalmente de bem espiritual perante Deus. Não é certo dizer que algumas partes de nós são pecaminosas, e outras puras. Antes, cada parte do nosso ser está maculada pelo pecado — o intelecto, as emoções e desejos, o coração (o centro do desejos e dos processos decisórios), as metas e motivos e até o corpo físico. Diz Paulo: “Sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum” (Rm 7.18) e “para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas” (Tt 1.15).

b. Nos nossos atos, somos totalmente incapazes de fazer o bem espiritual perante Deus. Essa idéia está ligada à anterior. Não só em nós, pecadores, falta o bem espiritual, mas também a capacidade de fazer qualquer coisa que agrade a Deus, e ainda a capacidade de nos aproximar de Deus por nossas próprias forças. Paulo diz que “os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rm 8.8). Além disso, a respeito de dar fruto para o reino de Deus e fazer o que lhe agrada, diz Jesus: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). De fato, os descrentes não são agradáveis a Deus, senão por outra razão qualquer, simplesmente porque seus atos não advêm da fé em Deus e do amor por ele, e “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6). Paulo, falando da época em que seus leitores eram descrentes, diz-lhes que estavam “mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora” (Ef 2.1-2). Os descrentes estão num estado de servidão ou escravidão ao pecado, pois “todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34). Embora, do ponto de vista humano, as pessoas possam ser capazes de fazer o bem, Isaías afirma que “todas as nossas justiças, [são] como trapo da imundícia” (Is 64.6; cf. Rm 3.9-20). Os incrédulos nem sequer são capazes de compreender corretamente as coisas de Deus, pois “o homem natural não recebe os dons [lit. “coisas”] do Espírito de Deus, pois lhe são insensatez, e não consegue compreendê-los, pois só se pode discerni-los espiritualmente” (1Co 2.14 rsv mg.). Tampouco podemos nós nos aproximar de Deus por nossas próprias forças, pois diz Jesus: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44).

Mas se nos vemos em total incapacidade de fazer qualquer bem espiritual aos olhos de Deus, então será que ainda temos alguma liberdade de escolha? Sem dúvida aqueles que estão alheios a Cristo ainda tomam decisões voluntárias — ou seja, decidem o que querem fazer, depois agem. Nesse sentido, existe afinal algum tipo de “liberdade” nas decisões que as pessoas tomam. Porém, em virtude da sua incapacidade de fazer o bem e fugir da sua rebeldia fundamental contra Deus e da sua preferência fundamental pelo pecado, os descrentes não têm liberdade no sentido mais importante do termo — ou seja, a liberdade de agir corretamente e de fazer o que é agradável a Deus.

A aplicação disso à nossa vida é bastante óbvia: se Deus dá a alguma pessoa o desejo de se arrepender e confiar em Cristo, ela não deve se demorar nem endurecer seu coração (cf. Hb 3.7-8; 12.17). Essa capacidade de se arrepender e desejar ter fé em Deus não é naturalmente nossa, mas vem pela atuação do Espírito Santo e não dura para sempre. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (Hb 3.15).

 

D. Pecados reais que cometemos

1. Todas as pessoas são pecadoras perante Deus.

As Escrituras em muitas passagens dão testemunho da pecaminosidade universal da humanidade. “Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.3). Diz Davi: “À tua vista não há justo nenhum vivente” (Sl 143.2). E diz Salomão: “Não há homem que não peque” (1Rs 8.46; cf. Pv 20.9).

No Novo Testamento, Paulo tece uma extensa argumentação em Romanos 1.18-3.20, mostrando que todas as pessoas, tanto judeus como gregos, apresentam-se culpados perante Deus. Diz ele: “Todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.9-10). Ele está certo de que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Tiago, o irmão do Senhor, admite: “Todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg 3.2), e se ele, que era apóstolo e líder da igreja primitiva, admitiu que cometia muitos erros, então também nós devemos nos dispor a admiti-lo. João, o discípulo amado, que era especialmente íntimo de Jesus, disse:

Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós (1Jo 1.8-10).

 

2. Será que nossa capacidade limita a nossa responsabilidade?

Pelágio, popular mestre cristão que pregou em Roma por volta de 383-410 d.C., e mais tarde (até 424 d.C.) na Palestina, ensinava que Deus responsabiliza o homem só pelas coisas que este é capaz de fazer. Logo, como Deus nos exorta a fazer o bem, temos necessariamente a capacidade de fazer o bem que Deus exige. A posição pelagiana rejeita a doutrina do “pecado herdado” (ou “pecado original”) e sustenta que o pecado consiste somente em atos pecaminosos isolados.

Contudo, essa idéia de que somos responsáveis perante Deus somente por aquilo que podemos fazer contraria o testemunho bíblico, que afirma tanto que estávamos “mortos nos [...] delitos e pecados” nos quais andávamos antes (Ef 2.1) quanto que somos incapazes de fazer qualquer bem espiritual, e também que somos todos culpados diante de Deus. Além do mais, se nossa responsabilidade perante Deus se limitasse à nossa capacidade, então pecadores extremamente empedernidos, sob pesado jugo do pecado, poderiam ser menos culpados diante de Deus do que cristãos maduros que se esforçam diariamente por obedecer-lhe. E o próprio Satanás, que eternamente só é capaz de fazer o mal, estaria completamente livre de culpa — sem dúvida nenhuma uma conclusão equivocada.

A verdadeira medida da nossa responsabilidade e da nossa culpa não é a nossa capacidade de obedecer a Deus, mas antes a perfeição absoluta da lei moral de Deus e a sua própria santidade (que se reflete nessa lei). “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48).

3. Será que as crianças são culpadas mesmo antes de pecar efetivamente?

Segundo alguns, as Escrituras pregam determinada “idade da imputabilidade”, antes da qual as crianças pequenas não são responsáveis pelo pecado nem tidas como culpadas perante Deus. Porém, as passagens citadas acima, na seção C, sobre o “pecado herdado”, indicam que mesmo antes do nascimento as crianças já são culpadas perante Deus e dotadas de uma natureza pecaminosa, o que não só lhes confere a tendência ao pecado, mas também faz que Deus as veja como “pecadoras”. “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). As passagens que concebem que no juízo final se considerarão os atos pecaminosos efetivamente cometidos (e.g., Rm 2.6-11) nada dizem sobre o fundamento do juízo nos casos em que não houve atos individuais certos ou errados, como ocorre com as crianças que morrem muito novas. Nesses casos, devemos aceitar as passagens bíblicas que afirmam que temos uma natureza pecaminosa antes do momento do nascimento. Além do mais, precisamos compreender que a natureza pecaminosa da criança se manifesta já bem cedo, certamente nos primeiros dois anos de vida, como qualquer um que já criou filhos pode confirmar. (Diz Davi, noutra passagem: “Desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham”, Sl 58.3.)

Mas então o que dizer das crianças que morrem antes de ter idade bastante para compreender e aceitar o evangelho? Será que podem ser salvas?

Aqui só nos resta dizer que, se essas crianças forem salvas, não será pelos seus próprios méritos, nem com base na sua justiça ou inocência, mas inteiramente com base na obra redentora de Cristo e na regeneração operada pela ação do Espírito Santo dentro delas. “Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3).

Todavia, certamente é possível que Deus conceda regeneração (ou seja, nova vida espiritual) a uma criança mesmo antes que ela nasça. Isso aconteceu a João Batista, pois o anjo Gabriel, antes de João nascer, disse: “Ele [...] será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno” (Lc 1.15). Podemos dizer que João Batista “nasceu de novo” antes de nascer! (Veja Nota dos Editores no final deste capítulo.) Encontramos exemplo semelhante em Salmos 22.10, onde diz Davi: “Desde o ventre de minha mãe, tu és meu Deus”. É evidente, portanto, que Deus é capaz de salvar as crianças de um modo incomum, sem que ouçam e compreendam o evangelho, concedendo-lhes regeneração bem cedo, às vezes antes mesmo do nascimento. É provável que imediatamente depois dessa regeneração surja, em idade bastante precoce, uma consciência incipiente e intuitiva de Deus e a fé nele, mas isso é algo que simplesmente não podemos entender.

Devemos, entretanto, afirmar bem claramente que essa não é a maneira normal de Deus salvar as pessoas. A salvação geralmente ocorre quando a pessoa ouve e compreende o evangelho, e então passa a ter fé em Cristo. Mas em casos incomuns como o de João Batista, Deus concede salvação mesmo antes dessa compreensão. E isso nos leva a concluir que é certamente possível que Deus também o faça ao saber que a criança morrerá antes de ouvir o evangelho.

Quantas crianças Deus salva dessa forma? Como as Escrituras não nos dão resposta para isso, simplesmente não temos como saber. Quando a Bíblia cala, não é sensato fazer declarações taxativas. No entanto, devemos reconhecer que Deus, nas Escrituras, freqüentemente salva os filhos daqueles que crêem nele (ver Gn 7.1; cf. Hb 11.7; Js 2.18; Sl 103.17; Jo 4.53; At 2.39; 11.14(?); 16.31; 18.8; 1Co 1.16; 7.14; Tt 1.6). Essas passagens não mostram que Deus automaticamente salva os filhos de todos os crentes (pois conhecemos filhos de pais piedosos que, crescendo, rejeitaram ao Senhor, e as Escrituras nos dão exemplos, como Esaú e Absalão), mas indicam realmente que a conduta habitual de Deus, seu modo “normal” ou esperado de agir, é aproximar de si os filhos dos crentes. Com respeito aos filhos dos crentes que morrem muito novos, não temos razão para pensar de outra maneira.

Especialmente relevante aqui é o caso do primeiro filho que Bate-Seba deu ao rei Davi. Depois da morte da criança, disse Davi: “Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” (2Sm 12.23). Davi, que ao longo da sua vida exibiu grande confiança de que viveria para sempre na presença do Senhor (ver Sl 23.6 e muitos dos salmos de Davi), também acreditava que voltaria a ver seu filhinho depois de morrer. Isso só pode implicar que ele estaria com o seu filho na presença do Senhor para sempre.2 0 Essa passagem, ao lado de outras mencionadas acima, deve servir igualmente como garantia, para todos os crentes que perderam filhos pequenos, de que um dia os verão novamente na glória do reino celeste.

Com respeito aos filhos dos descrentes que morrem em idade muito tenra, as Escrituras se calam. Simplesmente devemos deixar a questão nas mãos de Deus, confiando na sua justiça e misericórdia. Se forem salvos, não será com base em algum mérito próprio, nem na inocência que lhes possamos atribuir. Se forem salvos, será com base na obra redentora de Cristo; e sua regeneração, como a de João Batista antes do nascimento, será pela misericórdia e graça de Deus. A salvação sempre vem em virtude da misericórdia divina, e não por causa dos nossos méritos (ver Rm 9.14-18). As Escrituras não nos permitem dizer nada além disso.

4. Existem graus de pecado? Serão alguns pecados piores do que outros?

A pergunta pode ser respondida de modo afirmativo ou negativo, dependendo do sentido que se lhe dê.

a. Culpa legal. No tocante à nossa posição legal perante Deus, qualquer pecado, mesmo aquilo que nos pareça um pecado leve, torna-nos legalmente culpados perante Deus e, portanto, dignos de castigo eterno. Adão e Eva aprenderam isso no jardim do Éden, onde Deus lhes disse que um só ato de desobediência resultaria na pena de morte (Gn 2.17). E Paulo afirma que “o julgamento derivou de uma só ofensa, para a conde-nação” (Rm 5.16). Esse único pecado tornou Adão e Eva pecadores perante Deus, já incapazes de permanecer na santa presença divina.

Essa verdade permanece válida durante toda a história da raça humana. Paulo (citando Dt 27.26) a confirma: “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para praticá-las” (Gl 3.10). E Tiago declara:

Qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei (Tg 2.10-11).

Portanto, em termos de culpa legal, todos os pecados são igualmente maus, pois nos fazem legalmente culpados perante Deus e nos constituem pecadores.

b. Conseqüências na vida e no relacionamento com Deus. Por outro lado, alguns pecados são piores do que outros, pois trazem conseqüências mais danosas para nós e para os outros e, no tocante ao nosso relacionamento pessoal com Deus Pai, provocam-lhe desprazer e geram ruptura mais grave na nossa comunhão com ele.

As Escrituras às vezes falam de níveis de gravidade do pecado. Estando Jesus diante de Pôncio Pilatos, disse ele: “Quem me entrega a ti maior pecado tem” (Jo 19.11). A referência é aparentemente a Judas, que convivera com Jesus durante três anos e, no entanto, deliberadamente o traía entregando-o à morte. Embora Pilatos tivesse autoridade sobre Jesus em virtude do seu cargo no governo, mesmo sendo errado permitir que um homem inocente fosse condenado à morte, o pecado de Judas era bem “maior”, provavelmente por causa do conhecimento bem maior e da malícia associada e esse conhecimento.

5. O que acontece quando um cristão peca?

a. Nossa posição legal perante Deus fica inalterada. Embora esse assunto pudesse ser abordado adiante, juntamente com a adoção ou a santificação dentro da vida cristã, convém certamente abordá-lo aqui.

Quando o cristão peca, sua posição legal perante Deus permanece inalterada. Ele ainda assim é perdoado, pois “já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). A salvação não se baseia nos nossos méritos, mas é dádiva gratuita de Deus (Rm 6.23), e a morte de Cristo sem dúvida nenhuma expiou todos os nossos pecados — passados, presentes e futuros; Cristo morreu “pelos nossos pecados” (1Co 15.3), sem distinção. Em termos teológicos, conservamos assim nossa “justificação”.2 4 

b. Nossa comunhão com Deus se interrompe e nossa vida cristã se prejudica. Quando pecamos, ainda que Deus não deixe de nos amar, ele se desgosta conosco. (Mesmo o homem pode amar alguém e ao mesmo tempo se desgostar com esse alguém, como qualquer pai pode confirmar, ou qualquer esposa, ou qualquer marido.) Paulo nos diz que os cristãos podem entristecer “o Espírito de Deus” (Ef 4.30); quando pecamos, lhe causamos pesar e ele se desgosta conosco. O autor de Hebreus nos lembra que “o Senhor corrige a quem ama” (Hb 12.6, citando Pv 3.11-12) e que o “Pai espiritual [...] nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.9-10).

c. O perigo dos “evangélicos não convertidos”. Embora o cristão genuíno que peca não perca a sua justificação ou adoção perante Deus (ver acima), convém deixar bem claro que a mera associação a uma igreja evangélica, a mera conformidade exterior aos parâmetros “cristãos” de conduta esperados, não garante a salvação. Especialmente em sociedades e culturas em que para as pessoas é fácil (ou mesmo natural) ser cristão, existe a possibilidade real de que alguns que na verdade não nasceram de novo entrem na igreja. Se essas pessoas acabam cada vez mais revelando desobediência a Cristo na sua conduta, não devem se deixar iludir acreditando que ainda contam com justificação ou adoção na família de Deus.

6. Qual é o pecado imperdoável?

Várias passagens bíblicas falam de um pecado que não será perdoado. Jesus diz Mt 12.31-32, e  Mc 3.29; cf. Lc 12.10. Essas passagens talvez falem do mesmo pecado, talvez de pecados diferentes; para decidir, é preciso fazer um exame das passagens dentro dos seus contextos.

 

E. O castigo do pecado

Embora o castigo divino do pecado funcione realmente como elemento inibidor contra novos pecados e como alerta àqueles que o testemunham, não é essa a razão principal pela qual Deus pune o pecado. A razão primeira é que a justiça de Deus o exige, para que ele seja glorificado no universo que criou. Ele é o Senhor que pratica “misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” (Jr 9.24).