C. Algumas considerações importantes acerca da oração eficaz

23-10-2011 18:31

As Escrituras indicam várias considerações que precisam ser levadas em conta se pretendemos fazer a espécie de oração que Deus deseja de nós.

1. Orar segundo a vontade de Deus.
João nos diz: “Esta é a confiança que temos para com ele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que ele nos ouve quanto ao que lhe pedimos, estamos certos de que obtemos os pedidos que lhe temos feito” (1Jo 5.14-15). Jesus nos ensina a orar: “Faça-se a tua vontade” (Mt 6.10) e ele mesmo nos dá o exemplo, orando no jardim do Getsêmani: “Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39).

2. Orar com fé. Diz Jesus:
“Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Mc 11.24). Algumas traduções variam, mas o texto grego diz realmente: “crede que recebestes”. Escribas posteriores que copiaram os manuscritos gregos, e também alguns comentaristas que vieram depois, entenderam que o texto significava: “creiam que vocês irão receber”. Porém, se aceitamos o texto como ele está nos melhores e mais antigos manuscritos (“crede que recebestes”), Jesus diz aparentemente que quando pedimos algo, a fé que traz resultados é a arraigada certeza de que depois de orar pedindo algo (ou talvez depois de já ter orado por algum tempo), Deus aceitou atender nosso pedido. Na comunhão pessoal com Deus que se verifica na oração genuína, essa fé da nossa parte só vem quando Deus nos dá um senso de certeza de que ele já aceitou atender nosso pedido.

3. Obediência.
Como a oração é um relacionamento com um Deus pessoal, qualquer coisa na nossa vida que lhe desagrade será um obstáculo à oração. Diz o salmista: “Se eu no coração contemplara a vaidade, o Senhor não me teria ouvido” (Sl 66.18). Se “O sacrifício dos perversos é abominável ao Senhor”, por outro lado “a oração dos retos é o seu contentamento” (Pv 15.8). Lemos também que “O Senhor [...] atende à oração dos justos” (Pv 15.29). Mas Deus não se dispõe favoravelmente aos que rejeitam suas leis: “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável” (Pv 28.9).

4. Confissão dos pecados.
Como nossa obediência a Deus jamais é perfeita nesta vida, continuamente dependemos do seu perdão dos nossos pecados. A confissão dos pecados é necessária para que Deus “nos perdoe” para restaurar a sua relação cotidiana conosco (ver Mt 6.12; 1Jo 1.9). É bom orar confessando todos os pecados conhecidos ao Senhor e suplicar o seu perdão. Às vezes, quando nele esperamos, ele nos faz lembrar outros pecados que precisamos confessar. Com respeito aos pecados que não recordamos, ou dos quais não estamos cientes, é sempre bom fazer a oração genérica de Davi: “Absolve-me das [faltas] que me são ocultas” (Sl 19.12).

5. Perdoar aos outros.
Diz Jesus: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14-15). Igualmente diz Jesus: “Quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas” (Mc 11.25). Nosso Senhor não tem em mente a experiência inicial de perdão que vivemos quando somos justificados pela fé, pois isso não conviria a uma oração que se faz diariamente (ver Mt 6.12 com v. 14-15).

6. Humildade.
Tiago nos diz que “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tg 4.6; também 1Pe 5.5). Portanto, recomenda: “Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará” (Tg 4.10). A humildade é assim a atitude correta na oração a Deus, enquanto o orgulho é absolutamente inadequado.
Deus é justamente zeloso da sua própria honra. Portanto não lhe apraz atender as orações dos orgulhosos que tomam a honra para si, em vez de dá-la a Deus. A verdadeira humildade diante de Deus, que também se reflete em genuína humildade diante dos outros, é imprescindível numa oração eficaz.

7. Persistência na oração.
Assim como Moisés por duas vezes permaneceu na montanha durante quarenta dias perante Deus por causa do povo de Israel (Dt 9.25-26; 10.10-11), e assim como Jacó disse a Deus: “Não te deixarei ir se me não abençoares” (Gn 32.26), também na vida de Jesus percebemos muita dedicação de tempo à oração. Quando grandes multidões o seguiam, “ele muitas vezes se retirava para regiões desertas e orava” (Lc 5.16, tradução do autor). Noutra ocasião, “passou a noite orando a Deus” (Lc 6.12).

8. Orar com sinceridade.
O próprio Jesus, nosso modelo de oração, orava constantemente. “Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade” (Hb 5.7). Em algumas orações da Bíblia podemos quase ouvir a forte intensidade com que os santos derramavam seus corações diante de Deus. Daniel brada: “Ó Senhor, ouve! Ó Senhor, perdoa! Ó Senhor, atende-nos e age; não te retardes, por amor de ti mesmo, ó Deus meu; porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome” (Dn 9.19). Quando Deus mostra a Amós o juízo que fará descer sobre o seu povo, o profeta suplica: “Senhor Deus, perdoa, rogo-te; como subsistirá Jacó? Pois ele é pequeno” (Am 7.2).

9. Esperar no Senhor.
Depois de clamar a Deus em busca de auxílio na aflição, Davi diz: “Espera pelo senhor, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo Senhor” (Sl 27.14). Igualmente, declara: “Pois em ti, Senhor, espero; tu me atenderás, Senhor, Deus meu” (Sl 38.15).

10. Orar a sós.
Daniel subiu até o seu quarto e “três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus” (Dn 6.10). Jesus freqüentemente saía a lugares solitários para ficar só e orar (Lc 5.16 et al.). E ele também nos ensina: “Quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6). Essa exortação tem como meta evitar o erro dos hipócritas, que adoravam orar nos cantos das praças “para serem vistos dos homens” (Mt 6.5).

11. Orar com os outros.
Os crentes encontram força ao orar em grupo. De fato, Jesus nos ensina: “Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.19-20).

12. Jejum.
Na Bíblia a oração está muitas vezes ligada ao jejum. Às vezes são ocasiões de intensa súplica diante de Deus, como quando Neemias, ao ouvir falar da ruína de Jerusalém, ficou “jejuando e orando perante o Deus dos céus” (Ne 1.4). Também, quando os judeus ficaram sabendo do decreto de Assuero, que determinava a morte de todos eles, houve “entre os judeus grande luto, com jejum, e choro, e lamentação” (Et 4.3); e Daniel buscou ao Senhor “com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza” (Dn 9.3). Noutras ocasiões, o jejum está ligado ao arrependimento, pois Deus diz ao povo que pecou contra ele: “Ainda assim, agora mesmo, diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto” (Jl 2.12).

13. Que dizer da oração não atendida?
Precisamos começar reconhecendo que, como Deus é Deus e nós somos suas criaturas, necessariamente algumas orações não serão atendidas, porque Deus mantém ocultos seus sábios planos para o futuro, e ainda que as pessoas orem, muitos eventos só ocorrerão no tempo que Deus determinou. Os judeus oraram durante séculos pela vinda do Messias, e com razão, mas só na “plenitude do tempo” é que “Deus enviou seu Filho” (Gl 4.4). As almas dos mártires no céu, livres do pecado, clamam a Deus pelo julgamento da terra (Ap 6.10), mas Deus não atende imediatamente; antes, ordena que repousem ainda um pouco (Ap 6.11).

D. Louvor e ação de graças

O louvor e a ação de graças a Deus, temas que serão tratados com mais profundidade no capítulo 51, são um elemento essencial da oração. A oração modelar que Jesus nos legou começa com uma palavra de louvor: “Santificado seja o teu nome” (Mt 6.9). E Paulo diz aos filipenses: “... em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp 4.6); e aos colossenses: “Perseverai na oração, vigiando com ações de graças” (Cl 4.2). A ação de graças, como qualquer outro aspecto da oração, não deve ser um mecânico “obrigado” a Deus, mas a expressão de palavras que reflitam a gratidão do nosso coração.

 

Grudem, Wayne; Teologia Sistemática; Edições Vida Nova; São Paulo