Batismo

29-10-2011 17:44

Pelo fato de a Igreja Católica Romana chamar essas duas cerimônias “sacramentos” e de ensinar que esses sacramentos em si mesmos realmente concedem graça ao povo (sem exigir fé dos que deles participam), alguns protestantes (especialmente os batistas) recusaram-se a referir-se ao batismo e à ceia do Senhor como “sacramentos”. Eles preferiram em vez disso a palavra ordenança. Acredita-se que esse seria um termo apropriado porque o batismo e a ceia do Senhor foram “ordenados” por Cristo. Por outro lado, outros protestantes, como os pertencentes às tradições anglicana, luterana e reformada, estão dispostos a usar o termo “sacramentos” para referir-se ao batismo e à ceia do Senhor, sem endossar, porém, a posição católica.

 

A. A forma e o significado do batismo

A prática do batismo no Novo Testamento era realizada de um modo: a pessoa batizada era imersa ou posta completamente dentro da água e em seguida retirada. Batismo por imersão é, portanto, o modo ou a forma pela qual o batismo era realizado no Novo Testamento. Isso se evidencia pelas seguintes razões.

(1) A palavra grega baptizo significa “mergulhar, afundar, imergir” algo na água. Isso é normalmente reconhecido, sendo esse o significado padrão do termo na literatura grega antiga tanto na Bíblia como fora dela.

(2) O sentido “imergir” é adequado e provavelmente exigido para a palavra nos vários textos do Novo Testamento. Em Marcos 1.5, o povo era batizado por João “no rio Jordão” (o texto grego traz en, “em”, e não “ao lado” ou “próximo” ou “perto” do rio). Marcos também nos diz que quando Jesus foi batizado “ele saiu da água” (Mc 1.10). O texto grego especifica que ele saiu “para fora da” (ek) água, e não que ele veio da água (mais bem comunicado pelo gr. apo).

(3) O simbolismo da união com Cristo em sua morte, sepultamento e ressurreição parece exigir batismo por imersão. Paulo afirma:

Ou, porventura ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos pois sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida (Rm 6.3-4).

 

De maneira semelhante, Paulo diz aos colossenses: “tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12).

 

B. Quem deve ser batizado?

O modelo revelado em vários textos do Novo Testamento mostra que somente os que fazem uma profissão de fé digna de crédito devem ser batizados. Essa posição é muitas vezes chamada “batismo de convertidos”, já que defende que somente os que creram em Cristo (ou, mais especificamente, os que deram provas razoáveis de terem crido em Cristo) devem ser batizados. A razão disso é que o batismo, que é um símbolo do início da vida cristã, deve ser ministrado apenas aos que de fato iniciaram a vida cristã.

1. O argumento dos textos narrativos do Novo Testamento.

Os exemplos dos que foram batizados, encontrados nas narrativas, sugerem que o batismo foi ministrado somente aos que fizeram uma profissão de fé digna de crédito. Depois do sermão de Pedro no Pentecostes: “Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados” (At 2.41). O texto especifica que o batismo foi ministrado aos que “aceitaram a palavra” e, portanto, tinham confiado em Cristo para receber a salvação.

2. O argumento do significado do batismo.

Além dessas indicações dos textos narrativos do Novo Testamento de que o batismo sempre se seguia à fé salvadora, há uma segunda consideração em favor do batismo de convertidos: o símbolo externo do início da vida cristã deve ser ministrado apenas aos que dão prova de já ter iniciado a vida cristã. Os autores do Novo Testamento escreveram com o nítido pressuposto de que todos os que eram batizados já tinham aceitado a Cristo pessoalmente e experimentado a salvação. Por exemplo, Paulo diz: “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes” (Gl 3.27). Aqui, Paulo trata o batismo como um símbolo externo de uma regeneração interna. Isso simplesmente não seria verdade no caso de crianças; Paulo não poderia ter dito “porque todas as crianças batizadas em Cristo de Cristo se revestiram”, pois as crianças ainda não chegaram à fé salvadora nem dão prova alguma de regeneração.

3. Primeira alternativa: a posição católica.

A Igreja Católica Romana ensina que o batismo deve ser ministrado às crianças. A razão disso é que a igreja católica crê que o batismo é necessário para a salvação e que o ato do batismo em si traz regeneração. Portanto, nessa posição, o batismo é um meio pelo qual a igreja confere graça. E, tratando-se de um canal de graça salvífica como esse, deve ser ministrado a todos.

4. Segunda alternativa: a posição protestante pedobatista.

Em contraste com a posição batista defendida na primeira parte desse capítulo e também com a posição católica que acaba de ser discutida, outro ponto de vista importante é que o batismo é corretamente ministrado a todas as crianças que sejam filhas de pais cristãos. Essa posição é muito comum em muitos igrejas protestantes (especialmente luteranas, episcopais, meto-distas, presbiterianas e reformadas).

O argumento de que crianças nascidas de cristãos devem ser batizadas depende principalmente destas três colocações:

a. As crianças eram circuncidadas na antiga aliança. No Antigo Testamento, a circuncisão era o sinal externo de ingresso na comunidade da aliança ou na comunidade do povo de Deus. A circuncisão era ministrada a todas as crianças israelitas (do sexo masculino) quando completavam oito dias de vida.

b. O batismo é paralelo à circuncisão. No Novo Testamento, o sinal externo de ingresso na “comunidade da aliança” é o batismo. Portanto, o batismo é o equivalente neotestamentário da circuncisão. Segue-se que o batismo deve ser ministrado a todas as crianças nascidas de pais cristãos. Negar-lhes tal benefício é privá-las de um privilégio e de um benefício que lhes pertence por direito – o sinal de pertencer à comunidade do povo de Deus, a “comunidade da aliança”.

c. O batismo de famílias. Outro apoio para a prática do batismo infantil é encontrado nos “batismos de famílias” relatados em Atos e nas epístolas, particularmente no batismo da casa de Lídia (At 16.15), da família do carcereiro de Filipos (At 16.33) e da casa de Estéfanas (1Co 1.16). Também se alega que Atos 2.39, que declara que a bênção prometida do evangelho é “para vós outros e para vossos filhos”, serve de base para tal prática.

 

C. O efeito do batismo

Acabamos de argumentar que o batismo simboliza regeneração ou novo nascimento espiritual. Mas será ele apenas um símbolo? Ou há nele, de alguma forma, também algo que o torna um “meio de graça”, isto é, um meio que o Espírito Santo usa para trazer bênção para o povo? Já discutimos essa questão no capítulo anterior, de modo que aqui será necessário apenas dizer que quando o batismo é adequadamente levado a efeito, é natural que também traga algum benefício espiritual aos cristãos. Há a bênção do favor de Deus que vem juntamente com toda obediência, bem como com a alegria que vem pela pública profissão de fé de alguém, e a segurança de haver representado um quadro físico claro da morte e ressurreição com Cristo e da purificação dos pecados. Com certeza o Senhor deu-nos o batismo para fortalecer e encorajar a nossa fé – e assim deve ser com todo o que é batizado e com todo cristão que é testemunha de um batismo.

 

D. É o batismo necessário?

Embora reconheçamos que Jesus ordenou o batismo (Mt 28.19), à semelhança do que fizeram os apóstolos (At 2.38), não devemos dizer que o batismo seja necessário para a salvação. Essa questão foi discutida até certo ponto anteriormente, quando respondemos à posição católica do batismo. Dizer que o batismo ou qualquer outra obra é necessário para a salvação equivale a dizer que não somos justificados somente pela fé, mas sim pela fé e determinada “obra”, a obra do batismo. O apóstolo Paulo se oporia à idéia de que o batismo é necessário para salvação tanto quanto ele se opôs à idéia semelhante de que a circuncisão era necessária à salvação (veja Gl 5.1-12).

 

E. A idade adequada para o batismo

Os que estão convencidos pelos argumentos em favor do batismo de convertidos precisam começar a perguntar: “Com que idade uma criança pode ser batizada?”.

A resposta mais direta é que a criança deve ter idade suficiente para fazer uma profissão de fé digna de crédito. É impossível estabelecer uma idade precisa aplicável a toda criança, mas quando os pais vêem prova convincente de vida espiritual genuína e também algum grau de compreensão do significado de aceitar Cristo, o batismo é apropriado. Naturalmente, isso exige uma administração cuidadosa por parte da igreja, bem como boa orientação por parte dos pais em casa. A idade exata do batismo varia de criança para criança, e também um pouco de igreja para igreja.

 

F. Questões finais

1. É necessário que as igrejas estejam divididas por causa do batismo?

Apesar de muitos anos de divisão por causa dessa questão entre os protestantes, há algum modo pelo qual os cristãos que divergem quanto ao batismo podem mostrar maior unidade de comunhão? E há alguma maneira pela qual se possa progredir em levar a igreja a uma unidade maior nessa questão?

2. Quem pode ministrar o batismo?

Finalmente, podemos perguntar: “Quem pode realizar a cerimônia de batismo? Somente o clero ordenado pode realizar essa cerimônia?”

Devemos reconhecer aqui que as Escrituras simplesmente não especificam quaisquer restrições sobre quem pode realizar a cerimônia do batismo. As igrejas que possuem um sacerdócio especial por meio do qual certas ações (e bênçãos) acontecem (tais como os católicos e até certo ponto os anglicanos) desejarão insistir que somente o clero devida-mente ordenado deve batizar em circunstâncias normais (embora sejam aceitas exceções em casos especiais). Todavia, se de fato cremos no sacerdócio de todos os crentes (veja 1Pe 2.4-10), parece não haver necessidade em princípio de restringir o direito de ministrar o batismo apenas ao clero ordenado.