Batismo e Plenitude no Espírito Santo

28-10-2011 14:26

Tradicionalmente, os livros de teologia sistemática não têm incluído um capítulo sobre o batismo no Espírito Santo nem sobre a plenitude do Espírito Santo como parte do estudo da “ordem de salvação”, os passos através dos quais os benefícios da salvação se aplicam à nossa vida. Mas com a disseminação do pentecostalismo que se iniciou em 1901, com a influência bem ampla do movimento carismático nas décadas de 1960 e 1970 e com o notável crescimento das igrejas pentecostais e carismáticas pelo mundo inteiro desde 1970 até o presente, a questão de um “batismo no Espírito Santo” distinto da regeneração adquiriu maior proeminência.

 

A. A concepção pentecostal tradicional

O tema deste capítulo se tornou importante hoje porque muitos cristãos dizem ter experimentado um “batismo no Espírito Santo” que veio depois que eles se converteram e trouxe grandes bênçãos para a vida deles. Alegam que a oração e o estudo da Bíblia se tornaram muito mais importantes e eficazes, que descobriram nova alegria na adoração, e muitas vezes dizem que receberam novos dons espirituais (em especial, e com mais freqüência, o dom de falar em línguas).

 

B. Que significa “batismo no Espírito Santo” no Novo Testamento?

Há apenas sete passagens no Novo Testamento em que lemos sobre alguém batizado no Espírito Santo. (As traduções citadas aqui usam a palavra com em lugar de em.) Alistamos abaixo as sete passagens.

 

C. Como devemos entender os casos de “segunda experiência” em Atos?

Mas mesmo que tenhamos entendido corretamente a experiência dos discípulos no Pentecostes registrada em Atos 2, não há outros exemplos de pessoas que tiveram uma “segunda experiência” de capacitação pelo Espírito Santo depois da conversão, como aquelas de Atos 8 (em Samaria), Atos 10 (a família de Cornélio) e Atos 19 (os discípulos de Éfeso)?

Estes não são também exemplos realmente convincentes para provar a doutrina pentecostal do batismo no Espírito Santo. Primeiro, normalmente a expressão “batismo no Espírito Santo” não é usada para se referir a qualquer desses eventos, e isso deve causar-nos certa hesitação em aplicar essa frase a eles. Mas o mais importante é que ao examinar cada caso mais de perto vemos mais claramente o que estava acontecendo nesses eventos.

 

D. Que termos devemos usar para nos referir à capacitação pelo Espírito Santo que acontece depois da conversão?

As seções anteriores argumentaram que “batismo no Espírito Santo” não é o termo usado pelos autores do Novo Testamento para falar de uma obra do Espírito Santo pós-conversão e que os exemplos de “segunda experiência” de recepção do Espírito Santo no livro de Atos não são padrões que devemos imitar em nossa vida cristã. Mas permanece a questão: “Que está acontecendo realmente aos milhões de pessoas que afirmam que receberam esse ‘batismo no Espírito Santo’ e que isso trouxe muito mais bênçãos à sua vida? Será possível que essa seja uma obra genuína do Espírito Santo, mas que as categorias e os exemplos bíblicos usados para ilustrá-la sejam incorretos? Poderia haver outras expressões e ensinos bíblicos para designar essa espécie de obra do Espírito Santo após a conversão e ajudar-nos a entendê-la de modo mais preciso?” Penso que há, mas antes de olharmos para elas, é conveniente comentar a importância de ter um entendimento correto sobre essa questão.

1. Ensinar um cristianismo de duas categorias provoca danos à igreja.

Em várias épocas na história da igreja os cristãos tentaram dividir a igreja em duas categorias de crentes. É isso o que ocorre com efeito com a doutrina pentecostal do batismo no Espírito Santo.

Mas tal divisão de cristãos em duas categorias não é uma compreensão singular encontrada somente no ensino pentecostal no século XX. De fato, muito do ensino pentecostal veio de antigos grupos de santidade que ensinavam que os cristãos poderiam ser crentes comuns ou crentes “santificados”. Outros grupos têm dividido os cristãos usando diferentes categorias, tais como crentes comuns e aqueles que são “cheios do Espírito”, ou crentes comuns e aqueles que são “discípulos”, ou cristãos “carnais” e “espirituais”. De fato, a Igreja Católica Romana há muito tem não só duas, mas três categorias: crentes comuns, sacerdotes e santos.

2. Há muitos graus de capacitação, comunhão com Deus e maturidade cristã pessoal.

Haveria um modelo melhor para entender os vários graus de maturidade e poder e comunhão com Deus experimentados pelos cristãos? Se desejamos eliminar as categorias que nos fazem pensar em cristãos em um grupo ou outro.

a. Como devemos entender as experiências de hoje? Que tem acontecido então às pessoas que dizem ter experimentado o “batismo no Espírito Santo” que lhes trouxe grandes bênçãos à vida? Devemos entender primeiro o que é normalmente ensinado sobre a necessidade de se preparar para o batismo no Espírito Santo. Com muita freqüência as pessoas são ensinadas que devem confessar todos os pecados conhecidos, arrepender-se de qualquer pecado que permaneça em sua vida, confiar em Cristo para receber o perdão desses pecados, entregar todas as áreas da vida para o serviço do Senhor, entregar-se plenamente a ele e crer que Cristo vai capacitá-las de uma maneira nova e equipá-las com novos dons para o ministério. Então, depois dessa preparação, elas são encorajadas a pedir a Jesus em oração que as batize no Espírito Santo. Mas que fruto é produzido por essa preparação? Ela é uma receita segura para crescimento expressivo na vida cristã! Essa confissão, arrependimento, compromisso renovado e fé e expectativa intensificadas, caso sejam genuínas, só podem trazer resultados positivos na vida de uma pessoa. Se qualquer cristão for sincero nesses passos de preparação para receber o batismo no Espírito Santo, com certeza haverá crescimento em santificação e comunhão mais profunda com Deus.

b. Que termos devemos usar hoje? Agora podemos entender por que os termos que usamos para descrever essa experiência e a categoria de entendimento em que a colocamos são tão importantes. Se usarmos a terminologia pentecostal tradicional de “batismo do Espírito Santo”, então quase inevitavelmente acabamos caindo no cristianismo de duas categorias, pois isso é visto como uma experiência comum que pode e de fato deve ocorrer a cristãos num ponto da linha do tempo, e, uma vez que tenha ocorrido, não precisa mais ser repetida. É visto como uma experiência singular de capacitação para o ministério, distinta da experiência de se tornar cristão, e as pessoas ou já receberam essa experiência ou ainda não. Em especial, quando a experiência é descrita em termos do que ocorreu aos discípulos no Pentecostes em Atos 2 (que foi claramente para eles uma experiência única), os samaritanos em Atos 8 e os discípulos de Éfeso em Atos 19, infere-se claramente que ela é um evento único que não só capacita as pessoas para o ministério, mas também as coloca numa categoria ou grupo diferente daquele em que estavam antes desse acontecimento. O uso do termo “o batismo no Espírito Santo” inevitavelmente implica dois grupos de cristãos.

c. Que é “ser cheio do Espírito Santo”? Contudo, o termo ainda mais comumente usado no Novo Testamento é “ser cheio do Espírito Santo”. Por causa do seu freqüente uso em contextos que falam de crescimento cristão e ministério, este me parece o melhor termo a ser usado para descrever as genuínas “segundas experiências” hoje (ou terceira ou quarta experiência, etc.). Paulo diz aos efésios: “Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito” (Ef 5.18, nvi). Ele usa um verbo no presente do imperativo que poderia ser traduzido de modo mais explícito por “sejam continuamente cheios pelo Espírito Santo”, dando a entender assim que isso é algo que deve acontecer continuamente com os cristãos.

3. Ser cheio do Espírito Santo não resulta sempre em falar em línguas.

Resta ainda um ponto que precisa ser tratado com respeito à experiência de ser cheio do Espírito Santo. Por existirem vários casos em Atos em que pessoas receberam o poder da nova aliança do Espírito Santo e começaram ao mesmo tempo a falar em línguas (At 2.4; 10.46; 19.6; provavelmente implícito também em 8.17-19 por causa do paralelo com a experiência dos discípulos em At 2), o ensino pentecostal normalmente tem sustentado que o sinal externo do batismo no Espírito Santo é o falar em línguas (isto é, falar em línguas que não são entendidas e não foram aprendidas pela pessoa que fala, sejam línguas humanas conhecidas, sejam outras espécies de línguas angelicais ou celestiais ou dadas miraculosamente).