7. E o mal?

23-10-2011 18:46

Se Deus de fato causa, mediante a sua ação providencial, tudo o que vem a acontecer no mundo, então surge a pergunta: “Qual a relação entre Deus e o mal que existe no mundo?” Será que Deus realmente causa os atos maus das pessoas? Se o faz, então não seria Deus responsável pelo pecado?

Podemos começar pela análise de várias passagens que afirmam que Deus, de fato, provocou acontecimentos maus e fez que se cometessem atos maus. Mas é importante lembrar que em todas essas passagens fica bem claro que as Escrituras, em momento nenhum, retratam Deus fazendo diretamente algo mau; retratam, sim, Deus causando atos maus por meio das ações voluntárias das criaturas morais.

8. Análise dos versículos relacionados a Deus e o mal.

Depois de examinar tantos versículos que falam do uso divino providencial dos atos maus de homens e demônios, que podemos dizer à guisa de análise?

a. Deus usa todas as coisas para cumprir os seus desígnios e usa até o mal para a sua glória e para o nosso bem. Assim, quando o mal entra em nossa vida para nos perturbar, podemos encontrar na doutrina da providência uma certeza mais profunda de que “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” (Rm 8.28 nvi). Foi essa convicção que possibilitou que José dissesse aos seus irmãos: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20).


b. Porém, Deus jamais faz o mal e jamais deve ser culpado pelo mal. Numa declaração semelhante àquelas citadas acima de Atos 2.23 e 4.27-28, Jesus também combina a predestinação divina da crucificação com a culpa moral daqueles que a executaram: “Porque o Filho do Homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído!” (Lc 22.22; cf. Mt 26.24; Mc 14.21). E numa declaração mais geral sobre o mal no mundo, diz Jesus: “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!” (Mt 18.7).

c. Deus culpa e julga justamente as criaturas morais pelo mal que fazem. Muitas passagens das Escrituras afirmam isso. Uma delas se encontra em Isaías: “Estes escolheram os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações, assim eu lhes escolherei o infortúnio e farei vir sobre eles o que eles temem; porque clamei, e ninguém respondeu, falei, e não escutaram; mas fizeram o que era mau perante mim e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer” (Is 66.3-4). Do mesmo modo, lemos: “Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29). A culpa pelo mal é sempre da criatura responsável que o comete, seja homem, seja demônio, e a criatura que comete o mal sempre merece castigo.

d. O mal é real, não ilusão, e jamais devemos fazer o mal, pois ele sempre prejudicará a nós mesmos e os outros. As Escrituras ensinam repetidamente que jamais temos o direito de fazer o mal e que persistentemente devemos nos opor a ele em nós mesmos e no mundo. Devemos orar: “Livra-nos do mal” (Mt 6.13). E quando virmos alguém se desviando da verdade e fazendo algo errado, devemos tentar trazê-lo de volta. Dizem as Escrituras: “Se algum entre vós se desviar da verdade, e alguém o converter, sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados” (Tg 5.19-20).

Apesar de todas as afirmações anteriores, chega um ponto em que nos vemos obrigados a confessar que não compreendemos como Deus pode ordenar que executemos atos maus e depois nos responsabilizar por eles, sem que o próprio Deus tenha culpa. Podemos afirmar que todas essas coisas são verdade, pois as Escrituras as ensinam. Mas a Bíblia não nos diz exatamente como Deus provoca essa situação, ou como Deus nos responsabiliza por aquilo que ordena que venha a acontecer. Nesse ponto a Bíblia se cala, e temos de concordar com Berkhof, considerando que em última análise “o problema da relação de Deus com o pecado permanece um mistério”.

9. Somos “livres”?

Temos “livre-arbítrio”? Se Deus exerce controle providencial sobre todos os eventos, será que em algum sentido somos livres? A resposta depende do que queremos dizer com a palavra livre. Em certos sentidos da palavra, todos concordam que somos livres na nossa vontade e nas nossas decisões.

 

Grudem, Wayne; Teologia Sistemática; Edições Vida Nova; São Paulo