A. Profecia

29-10-2011 17:16

Ainda que se dêem algumas definições para o dom de profecia, um novo exame do ensino neotestamentário sobre esse dom mostrará que devemos defini-la não como “previsão do futuro”, “proclamação de uma palavra do Senhor” ou “pregação poderosa”, mas, antes, como “dizer algo que Deus traz de modo espontâneo à mente”. Os quatro primeiros pontos do material a seguir sustentam essa conclusão; os demais pontos tecem outras considerações a respeito desse dom.

1. Os paralelos do Antigo Testamento no Novo Testamento.

Os profetas são os apóstolos do Novo Testamento. Os profetas do Antigo Testamento tinham uma responsabilidade surpreendente — eram capazes de falar e escrever palavras carregadas de autoridade divina absoluta. Eles podiam dizer: “Assim diz o Senhor”, e as palavras que se seguiam eram as palavras do próprio Deus. Os profetas do Antigo Testamento escreveram as palavras deles como se fossem palavras de Deus nas Escrituras para todas as épocas (veja Nm 22.38; Dt 18.18-20; Jr 1.9; Ez 2.7; et al.). Assim, não crer nas palavras dos profetas ou desobedecer a elas era não crer em Deus ou desobedecer a ele (veja Dt 18.19; 1Sm 8.7; 1Rs 20.36 e muitas outras passagens).

2. O significado da palavra profeta na época do Novo Testamento.

Por que Jesus escolheu o novo termo, apóstolo, para designar os que tinham autoridade para redigir as Escrituras? Provavelmente porque a palavra grega prophÂtÂs (“profeta”) na época do Novo Testamento possuía uma ampla gama de significados. Em geral, não possuía o sentido “aquele que fala as palavras do próprio Deus”, mas sim “aquele que fala baseado em alguma influência externa” (muitas vezes alguma espécie de experiência espiritual). Tito 1.12 emprega a palavra nesse sentido, quando Paulo cita o poeta pagão grego Epimênides: “Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos”. Os soldados que zombam de Jesus também parecem empregar a palavra profetizar nesse sentido, quando vendam Jesus e exigem cruelmente: “Profetiza-nos: quem é que te bateu?” (Lc 22.64). Eles não querem dizer: “Pronuncia-nos palavras de autoridade divina absoluta”, mas: “Fala-nos algo que tenha sido revelado a ti” (cf. Jo 4.19).

3. Indícios de que os “profetas” não falavam com autoridade equivalente à das palavras das Escrituras.

a. Atos 21.4. Em Atos 21.4, lemos que os discípulos de Tiro, “movidos pelo Espírito, recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém”. Isso parece referir-se a uma profecia dirigida a Paulo, mas Paulo desobedece! Ele jamais o faria se essa profecia contivesse as palavras do próprio Deus e autoridade equivalente à das Escrituras.

b. Atos 21.20-11. Depois, em Atos 21.20-11, Ágabo profetizou que os judeus em Jerusalém amarrariam a Paulo e o entregariam nas mãos dos gentios, predição quase correta, mas não de todo: os romanos, não os judeus, prenderam Paulo (v. 33; também 22.29), e os judeus, em vez de o entregarem voluntariamente, tentaram matá-lo, de modo que ele teve de ser resgatado à força (v. 32). A predição não estava muito distante, mas continha imprecisões em detalhes que levantariam dúvidas quanto à validade de qualquer profeta do Antigo Testamento. Por outro lado, é possível explicar perfeitamente esse texto se supormos que Ágabo teve uma visão de Paulo prisioneiro dos romanos em Jerusalém, cercado de uma multidão irada de judeus.

c. 1Tessalonicenses 5.19-21. Paulo diz aos tessalonicenses: “Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1Ts 5.20-21). Se os tessalonicenses pensassem que a profecia equivalia à Palavra de Deus em autoridade, Paulo jamais teria de lhes dizer que não a desprezassem — eles tinham “recebido” e “acolhido” a Palavra de Deus com alegria do Espírito Santo” (1Ts 1.5; 2.13; cf. 4.15). Mas quando Paulo lhes diz que julguem todas as coisas, isso deve incluir pelo menos as profecias mencionadas na frase anterior. Ele dá a entender que as profecias contêm alguns elementos bons e outros nem tanto quando os incentiva a reter “o que é bom”. Jamais se poderia dizer isso das palavras de um profeta do Antigo Testamento ou dos ensinos autorizados de um apóstolo do Novo Testamento.

d. 1Coríntios 14.29-38. Indicação mais ampla sobre a profecia no Novo Testamento encontra-se em 1Coríntios 14. Quando Paulo diz: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem” (1Co 14.29), ele dá a entender que devem ouvi-los com atenção e separar a boa profecia da má, aceitando algumas e rejeitando o restante (pois essa é a implicação da palavra grega , aqui traduzida “julguem”). Não conseguimos imaginar um profeta do Antigo Testamento como Isaías dizendo: “Ouvi o que digo e pesai o que se fala — separai o bom do mau, o que deveis aceitar do que não deveis”! Se a profecia tinha autoridade divina absoluta, seria pecado fazer isso. Mas aqui Paulo ordena que se faça, insinuando que a profecia neotestamentária não tinha a autoridade das palavras do próprio Deus.

e. O preparo dos apóstolos para a ausência deles. Além dos versículos considerados até aqui, outro tipo de indício dá a entender que os profetas das igrejas neotestamentárias falavam com menos autoridade que os apóstolos do Novo Testamento ou que as Escrituras: o problema dos sucessores dos apóstolos é resolvido não por um incentivo a que os cristãos ouçam os profetas (ainda que houvesse profetas por ali), mas a que se voltem para as Escrituras.

É assim que Paulo, ao final da vida, destaca o dever de manejar bem a palavra de verdade (2Tm 2.15) e o caráter inspirado das Escrituras “para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”’ (2Tm 3.16). Judas insta seus leitores a batalhar “diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Pedro, ao final da vida, incentiva seus leitores a atender às Escrituras, “como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso” (2Pe 1.19-20), e lhes relembra os ensinos do apóstolo Paulo” em todas as suas epístolas” (2Pe 3.16). Em momento algum lemos exortações como: “dai ouvido aos profetas em vossas igrejas” ou “obedecei às palavras do Senhor por intermédio de vossos profetas”, etc.

4. Como falar da autoridade da profecia hoje?

Assim, as profecias na igreja hoje devem ser consideradas palavras meramente humanas, não palavras de Deus, e não equivalentes às palavras de Deus em autoridade. Mas será que essa conclusão está em conflito com o ensino e a prática carismática atual? Penso que ela está em conflito com boa parte da prática carismática, mas não com boa parte do ensino carismático

5. Uma “revelação” espontânea tornava a profecia diferente dos outros dons.

Se a profecia não contém as palavras do próprio Deus, então de que se trata? Em que sentido ela vem de Deus?

6. A diferença entre profecia e ensino.

Pelo que sabemos, toda “profecia” do Novo Testamento era baseada nesse tipo de indução espontânea do Espírito Santo (cf. At 11.28; 21.4, 20-22; e observe as idéias de profecia apresentadas em Lc 7.39; 22.63-64; Jo 4.19; 11.51). A menos que uma pessoa receba uma “revelação” espontânea de Deus, não há profecia.

7. Objeção:

isso torna a profecia “muito subjetiva”. Nesse ponto alguns contestam que esperar por tais “induções” da parte de Deus é um processo “simplesmente muito subjetivo”. Mas em resposta pode-se dizer que, pela saúde da igreja, muitas vezes os que fazem essa objeção são os que mais necessitam desse processo em sua vida cristã! Esse dom exige que se espere no Senhor, que se lhe dê ouvidos, para escutar seu conselho em nosso coração. Para os cristãos completamente evangélicos, sadios quanto à doutrina, intelectuais e “objetivos”, é provável que a maior necessidade seja a de uma forte influência que dê equilíbrio a um relacionamento “subjetivo” mais vital com o Senhor na vida diária. E essas pessoas são também as menos sujeitas a serem conduzidas a erros, pois já dão grande ênfase à fundamentação sólida na Palavra de Deus.

8. As profecias podiam incluir qualquer conteúdo edificante.

Os exemplos acima mencionados de profecias no Novo Testamento mostram que a idéia de profecia apenas como “predição do futuro” é certamente errada. Havia algumas predições (At 11.28; 21.22), mas também havia revelação de pecados (1Co 14.25). Na realidade, tudo que edificasse podia estar incluído, pois Paulo diz: “... o que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando” (1Co 14.3). Outra indicação do valor da profecia era que podia atender às necessidades do coração das pessoas de maneira espontânea, direta.

9. Muitas pessoas na congregação podem profetizar.

Outro grande benefício da profecia é que dá oportunidade para que todos os da congregação participem, não só os oradores capacitados ou os que têm dom de ensino. Paulo diz querer que “todos” os coríntios profetizem (1Co 14.5) e afirma: “... todos podeis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados” (1Co 14.31).21  Isso não significa que todo cristão de fato terá capacidade de profetizar, pois Paulo diz: “Nem todos são profetas, são?” (1Co 12.29, tradução do autor). Mas significa que qualquer um que receba uma “revelação” de Deus tem permissão de profetizar (segundo as orientações de Paulo) e dá a entender que muitos profetizarão. Por isso, a maior abertura para o dom de profecia pode ajudar a vencer situações em que muitos que freqüentam nossas igrejas são meros espectadores e não participantes. Talvez estejamos contribuindo para o problema do “cristianismo espectador” ao reprimir a obra do Espírito nessa área.

10. Devemos “procurar com zelo” a profecia.

Paulo tanto valorizava esse dom que disse aos coríntios: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis” (1Co 14.1). Depois, no final de sua discussão sobre os dons espirituais, volta a dizer: “Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar” (1Co 14.39). E ele disse: “o que profetiza edifica a igreja” (1Co 14.4).

11. Como incentivar e regulamentar a profecia na igreja local.

Por fim, se uma igreja começa a incentivar o uso da profecia onde antes não se usava, que se deve fazer? Como pode incentivar esse dom sem cair em abusos?

Para todos os cristãos e especialmente para pastores e outros que têm a responsabilidade de ensinar a igreja, seria adequado e pastoralmente sábio seguir alguns passos:

  1. Ore seriamente para que Deus dê sabedoria, indicando como e quando introduzir o assunto na igreja.
  2. Deve haver ensino sobre o assunto nos períodos regulares de estudo bíblico já promovidos pela igreja.
  3. A igreja deve ter paciência e seguir devagar — os líderes da igreja não devem ser “dominadores” (ou autoritários) (1Pe 5.3), e uma abordagem paciente evitará que as pessoas se afastem amedrontadas ou se alienem desnecessariamente.
  4. A igreja deve reconhecer e incentivar o dom de profecia da maneira pela qual já esteja atuando na igreja — em reuniões de oração, por exemplo, quando alguém sentiu-se “dirigido” de maneira pouco comum pelo Espírito Santo a orar por algo, ou quando parece que o Espírito Santo estava trazendo à mente um hino ou passagem das Escrituras, ou quando ele deu um senso comum sobre o tom ou sobre um tema específico para um período de adoração ou de oração conjunta. Mesmo cristãos em igrejas não abertas para o dom de profecia podem pelo menos estar sensíveis a inspirações do Espírito Santo quanto aos motivos de oração em reuniões de oração da igreja e podem então expressar essas inspirações em forma de oração (que pode chamar-se “oração profética”) ao Senhor.
  5. Se os quatro primeiros passos forem seguidos e se a congregação e seus líderes aceitarem, podem-se dar algumas oportunidades para que se use o dom de profecia em alguns cultos menos formais da igreja ou em grupos pequenos reunidos nos lares. Caso isso seja permitido, os que profetizam devem ser mantidos sob a orientação das Escrituras (1Co 14.29-36), devem buscar genuinamente a edificação da igreja e não o prestígio pessoal (1Co 14.12, 26) e não devem dominar a reunião ou ser demasiadamente dramáticos ou emocionais em seu discurso (atraindo assim a atenção para si mesmos e não para o Senhor). As profecias devem, com certeza, ser avaliadas de acordo com os ensinos das Escrituras (1Co 14.29-36; 1Ts 5.19-21).
  6. Se o dom de profecia começar a ser empregado na igreja, ela deve dar ênfase ainda maior no valor infinitamente superior das Escrituras como a fonte a que o cristão sempre pode recorrer para ouvir a voz do Deus vivo. A profecia é um dom valioso, assim como muitos outros dons, mas é nas Escrituras que Deus e somente Deus nos fala com suas palavras, mesmo hoje, por toda nossa vida. Em vez de esperar que a cada culto o ponto alto seja alguma palavra de profecia, os que empregam o dom de profecia precisam ser lembrados de que devemos encontrar nosso centro de alegria, nossas expectativas e nosso prazer na própria pessoa de Deus à medida que ele nos fala por meio da Bíblia. Ali temos um tesouro de valor infinito: as verdadeiras palavras de nosso Criador falando-nos numa linguagem que podemos compreender. E em vez de buscar uma orientação freqüente por meio da profecia, devemos destacar que é nas Escrituras que devemos encontrar orientação para nossa vida. Nas Escrituras estão nossa fonte de direção, nossa referência ao buscar a vontade de Deus, nosso padrão suficiente e completamente fidedigno. É das palavras de Deus nas Escrituras que podemos dizer confiantes: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para os meus caminhos” (Sl 119.105).