A Morte e o Estado Intermediário

28-10-2011 14:24

A. Por que os cristãos morrem?

Nossa abordagem sobre a aplicação da redenção não pode deixar de considerar a morte e a questão de como o cristão deve encarar sua própria morte e também a de outros. É necessário também que perguntemos o que acontece conosco entre o momento de nossa morte e a volta de Cristo, quando ele nos dará nosso corpo ressurreto.

1. A morte não é um castigo para os cristãos.

Paulo diz-nos claramente que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Toda a pena dos nossos pecados já foi paga. Portanto, embora saibamos que os cristãos morrem, não devemos ver a morte do cristão como um castigo de Deus ou como resultado da punição devida dos nossos pecados. É verdade que a morte é a punição do pecado, todavia essa punição não se aplica mais a nós – não em termos de morte física, nem em termos de morte espiritual ou separação de Deus. Tudo já foi pago por Cristo. Portanto, se queremos entender por que os cristãos morrem, devemos procurar alguma outra razão que não seja o castigo dos nossos pecados.

2. Em um mundo caído, a morte é o desfecho da vida.

Em sua grande sabedoria, Deus decidiu que não estenderia a nós os benefícios da obra redentora de Cristo de uma só vez. Em vez disso, escolheu estender gradualmente a nós os benefícios da salvação .De igual modo, Deus não quis eliminar de imediato todo o mal do mundo, mas sim esperar até o juízo final e o estabelecimento dos novos céus e da nova. Em resumo, ainda vivemos em um mundo caído, e nossa experiência da salvação ainda é incompleta.

3. Deus usa a experiência da morte para completar a nossa salvação.

Em toda a nossa vida como cristãos, sabemos que nunca temos de pagar pelo pecado, pois tudo foi pago por Cristo (Rm 8.1). Portanto, quando experimentamos dor e sofrimento na vida, nunca devemos pensar que Deus está-nos castigando (para nos causar algum mal). Às vezes o sofrimento é apenas resultado de uma vida pecaminosa, de um mundo caído, e muitas vezes passamos por sofrimento porque Deus está-nos disciplinando (para o nosso bem), mas em todos os casos temos certeza, conforme Romanos 8.28, de que “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, que foram chamados de acordo com o seu propósito” (nvi).

4. Nossa experiência da morte completa nossa união com Cristo.

Outra razão por que Deus nos permite passar pela morte, em vez de levar-nos diretamente para o céu quando nos tornamos cristãos, é que através da morte imitamos a Cristo no que ele fez, experimentando assim uma união mais íntima com ele. Paulo pode afirmar que somos herdeiros com Cristo: “Se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). E Pedro diz aos seus leitores que não se surpreendam com a prova de fogo que estão enfrentando, antes, anima-os, dizendo: “Alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4.13).

5. Nossa obediência a Deus é mais importante do que a preservação de nossa vida.

Se Deus usa a experiência da morte para aprofundar nossa confiança nele e aumentar nossa obediência a ele, é importante que nos lembremos de que o alvo do mundo de preservar a vida a todo custo não é o principal alvo do cristão: obediência e fidelidade a Deus em qualquer circunstância é muito mais importante. Foi por essa razão que Paulo podia dizer: Estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (At 21.13; cf. 25.11). Ele disse aos líderes de Éfeso: “Porém em nada considero a minha vida preciosa, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar do evangelho da graça de Deus” (At 20.24).

 

B. Como devemos entender nossa própria morte e a morte dos outros?

1. Nossa própria morte.

O Novo Testamento incentiva-nos a ver nossa própria morte não com temor, mas com alegria na esperança de estar com Cristo. Paulo diz: “Preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor” (2Co 5.8). Quando estava preso, sem saber se iria morrer ou ser libertado, ele pôde afirmar:

Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor.

2. A morte dos amigos e parentes cristãos.

Embora possamos ver nossa própria morte com a feliz expectativa de estar na presença de Cristo, nossa atitude será um pouco diferente quando enfrentarmos a morte de amigos e parentes cristãos. Nesses casos haveremos de experimentar verdadeira tristeza – mas acompanhada também de alegria pelo fato de eles terem partido para estar com o Senhor.

 

C. O que acontece depois da morte?

1. A alma dos cristãos vai imediatamente para a presença de Deus.

A morte é a interrupção temporária da vida no corpo e a separação da alma do corpo. Quando o cristão morre, embora o corpo permaneça na terra e seja sepultado, no momento da morte a alma (ou o espírito) vai imediatamente para a presença de Deus, cheia de alegria. Quando Paulo pensa em morte, ele afirma: “Preferindo deixar o corpo, e habitar com o Senhor” (2Co 5.8). Deixar o corpo é estar com o Senhor, no lar. Ele também diz que seu desejo é “partir e estar com Cristo” (Fp 1.23). Jesus também disse ao ladrão que estava morrendo ao lado dele na cruz: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.46).

a. A Bíblia não ensina a doutrina do purgatório. O fato de que a alma do cristão vai imediatamente para a presença de Deus significa que não existe algo como o purgatório. Na doutrina católica romana, o purgatório é o lugar onde a alma do cristão é purificada do pecado até que esteja pronta para ser aceita no céu. De acordo com essa posição, os sofrimentos do purgatório são dados a Deus como substitutos do castigo pelos pecados que os cristãos mereciam ter recebido, e não receberam.

b. A Bíblia não ensina a doutrina do “sono da alma”. O fato de que a alma dos cristãos vai imediatamente para a presença de Deus também significa que a doutrina do sono da alma está errada. Essa doutrina ensina que quando os cristãos morrem, eles entram em um estado de existência inconsciente e que voltarão à consciência somente quando Cristo voltar e ressuscitá-los para a vida eterna. Essa doutrina tem sido ensinada eventualmente por alguns na história da igreja, inclusive alguns anabatistas da época da Reforma e alguns seguidores de Edward Irving na Inglaterra no século XIX. Na verdade, um dos primeiros escritos de João Calvino foi um folheto contra tal doutrina, a qual nunca teve ampla aceitação na igreja.

c. Será que os salvos do Antigo Testamento foram imediatamente para a presença de Deus? Alguns têm dito que, embora as almas dos salvos desde a ressurreição de Cristo vão imediatamente para a presença de Deus no céu, as almas dos salvos que morreram antes da ressurreição de Cristo não desfrutaram das bênçãos do céu, mas foram para determinado lugar, aguardando que a obra redentora de Cristo fosse completada. Às vezes isso é chamado o limbus patrum, ou simplesmente limbo. Essa posição é especialmente comum na teologia católica romana, mas também tem sido defendida por alguns luteranos. Parte do fundamento dessa doutrina vem de uma interpretação particular da idéia da descida de Cristo ao inferno, que já discutimos em capítulo anterior.

d. Devemos orar pelos mortos? Finalmente, o fato de que as almas dos salvos vai imediatamente para a presença de Deus mostra que não devemos orar pelos mortos. Embora essa idéia seja ensinada em 2Macabeus 12.42-45, ela não é ensinada em nenhum texto bíblico. Além disso, não há indicação de que tenha sido prática de nenhum cristão da época do Novo Testamento, nem deveria tê-lo sido. Quando os salvos morrem, vão para a presença de Deus e entram em um estado de perfeita felicidade com ele.

2. A alma dos descrentes vai imediatamente para o castigo eterno.

A Bíblia nunca nos incentiva a pensar que haverá segunda chance de aceitar Cristo depois da morte. Na verdade, o quadro é exatamente o oposto. A passagem em que Jesus fala do rico e de Lázaro não dá esperanças de que seja possível passar do inferno para o céu depois da morte, apesar de ter o rico clamado no inferno: “Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama”. E Abraão respondeu: “E, além de tudo, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós outros não podem, nem os de lá passar para nós” (Lc 16.24-26).