A Ceia do Senhor

29-10-2011 17:27

O Senhor Jesus instituiu duas ordenanças (ou sacramentos) a serem observadas pela igreja. O capítulo anterior discutiu o batismo, ordenança observada uma só vez por todo indivíduo, como sinal do início de sua vida cristã. Este capítulo discute a ceia do Senhor, ordenança que deve ser observada repetidamente por toda a vida de um cristão, como sinal de comunhão contínua com Cristo.

 

A. Precedentes na história da redenção

Há precedentes dessa cerimônia no Antigo Testamento? Parece que sim, pois na antiga aliança também há exemplos em que se come e se bebe na presença de Deus. Por exemplo, quando o povo de Israel estava acampado diante do monte Sinai, logo depois de receber os Dez Mandamentos, Deus chamou os anciãos de Israel para subirem o monte, ao encontro dele: E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel [...] porém eles viram a Deus, e comeram, e beberam (Êx 24.9-11).

 

B. O significado da ceia do Senhor

O significado da ceia do Senhor é complexo, rico e pleno. Há vários aspectos simbolizados e afirmados na ceia do Senhor.

1. A morte de Cristo.

Quando participamos da ceia do Senhor há nisso um símbolo da morte de Cristo, pois nossas ações ali formam um quadro de sua morte por nós. Quando partido, o pão simboliza o partir do corpo de Cristo, e, quando derramado (bebido), o cálice simboliza o derramar do sangue de Cristo em nosso favor. Essa é a razão por que participar da ceia do Senhor é também uma espécie de proclamação: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1Co 11.26).

2. Nossa participação nos benefícios da morte de Cristo.

Jesus ordenou aos seus discípulos: “Tomai, comei; isto é o meu corpo” (Mt 26.26). Quando individualmente pegamos o cálice e nós mesmos o tomamos, cada um de nós está proclamando por meio de tal ato: “Estou tomando os benefícios da morte de Cristo para mim mesmo”. Quando assim procedemos mostramos um símbolo do fato de que participamos dos benefícios conquistados em nosso favor pela morte de Jesus.

3. Alimento espiritual.

Assim como o alimento comum nutre o nosso corpo, também o pão e o vinho da ceia do Senhor nos alimentam. Mas eles também representam o fato de que há alimento e refrigério espirituais que Cristo está concedendo à nossa alma – de fato, a cerimônia que Jesus instituiu, por sua própria natureza, tem a finalidade de ensinar-nos isso.

4. A unidade dos cristãos.

Quando os cristãos participam juntos da ceia do Senhor dão também um sinal nítido de unidade de uns para com os outros. Na verdade, Paulo diz: “Porque nós, embora muitos, somos unicamente um só pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” (1Co 10.17)

5. Cristo afirma seu amor por mim.

O fato de que posso participar da ceia do Senhor – na verdade, de que Jesus convida-me para tanto – é um lembrete vívido e um sinal visível e seguro de que Jesus Cristo me ama como indivíduo e como pessoa. Quando venho tomar a ceia do Senhor reafirmo constantemente a segurança do amor pessoal de Cristo por mim.

6. Cristo afirma que todas as bênçãos da salvação estão reservadas para mim.

Quando atendo ao convite de Cristo para participar da ceia do Senhor, o fato de que ele me convidou à sua presença assegura-me de que Cristo tem abundantes bênçãos para mim. Na ceia, estou de fato comendo e bebendo num antegozo da mesa do grande banquete do Rei. Venho à sua mesa como membro de sua eterna família. Quando o Senhor recebe-me nessa mesa, ele me assegura de que me receberá para desfrutar de todas as outras bênçãos da terra e dos céus também, especialmente da grande ceia das Bodas do Cordeiro, para a qual está reservado um lugar para mim.

7. Eu afirmo minha fé em Cristo.

Por fim, quando tomo o pão e o cálice, por meu ato estou proclamando: “Preciso de ti e em ti confio, Senhor Jesus, para perdoar os meus pecados e dar vida e saúde à minha alma, pois somente pelo teu corpo partido e teu sangue derramado eu posso ser salvo”. De fato, quando participo do partir do pão, dele comendo, e do derramar do cálice, dele bebendo, proclamo constantemente que meus pecados constituíram parte do motivo do sofrimento e da morte de Jesus. Assim, tristeza, alegria, gratidão e profundo amor por Cristo são ricamente mesclados na beleza da ceia do Senhor.

 

C. Como Cristo está presente na ceia do Senhor?

1. A posição católica: transubstanciação.

Conforme a doutrina da Igreja Católica Romana, o pão e o vinho tornam-se realmente o corpo e o sangue de Cristo. Isso acontece quando o padre diz “isto é o meu corpo”, durante a celebração da missa. Quando o padre diz isso, o pão é levantado (elevado) e adorado. Esse ato de elevar o pão e de pronunciá-lo corpo de Cristo só pode ser feito por um sacerdote.

Quando isso acontece, segundo a doutrina católica, concede-se graça aos presentes ex opere operato, isto é, “realizada por obra”, mas a quantidade de graça dispensada ocorre em proporção à disposição subjetiva de quem recebe a graça. Além disso, toda vez que se celebra a missa, o sacrifício de Cristo é repetido (em algum sentido), e a igreja católica é cautelosa em afirmar que se trata de um sacrifício real, embora não corresponda ao sacrifício que Cristo fez na cruz.

2. A posição luterana: “em, com e sob”.

Martinho Lutero rejeitou a posição católica sobre a ceia do Senhor, mas insistiu em que a frase “isto é o meu corpo” tinha de ser entendida, em algum sentido, como uma declaração literal. Sua conclusão não foi que o pão torna-se de fato o corpo físico de Cristo, mas que o corpo físico de Cristo está presente “em, com e sob” o pão da ceia do Senhor. A ilustração dada às vezes para explicar é que o corpo de Cristo está presente assim como a água está presente em uma esponja – a água não é a esponja, mas está presente “em, com e sob” a esponja e onde quer que a esponja esteja. Outra ilustração é a do magnetismo de um imã, ou ainda a de uma alma em um corpo.

3. O restante das igrejas protestantes: presença simbólica e espiritual de Cristo.

De modo distinto de Martinho Lutero, João Calvino e outros reformadores argumentaram que o pão e o vinho da ceia do Senhor não se transformam no corpo e no sangue de Cristo, nem contêm, de algum modo, o corpo e o sangue de Cristo. Em vez disso, o pão e o vinho simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, um sinal visível do fato de que o próprio Cristo estava verdadeiramente presente.

 

D. Quem deve participar da ceia do Senhor?

Apesar das diferenças sobre alguns aspectos da ceia do Senhor, a maioria dos protestantes iria concordar, em primeiro lugar, que somente os que crêem em Cristo devem participar da ceia, porque trata-se de um sinal de conversão e de permanência na fé cristã. Paulo adverte que os que comem e bebem indignamente enfrentarão sérias conseqüências: “Pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem” (1Co 11.29-30).

 

E. Outras questões

Quem deve ministrar a ceia do Senhor? As Escrituras não apresentam um ensina-mento explícito sobre a questão, de modo que compete a nós decidir quem é sábio e adequado para assim beneficiar os cristãos na igreja. Para que não haja abusos na ceia do Senhor, um líder responsável deve ser encarregado de ministrá-la, mas não parece que as Escrituras exigem que apenas os pastores ordenados ou oficiais especiais se encarreguem disso. Em situações normais, é claro, o pastor ou outro líder que normalmente dirige os cultos de adoração da igreja deve atuar também na comunhão. Mas, além disso, não parece haver razão por que somente oficiais ou líderes, ou apenas homens, devem distribuir os elementos. Será que não comunicaríamos muito mais claramente a nossa unidade e igualdade espiritual em Cristo, se homens e mulheres, por exemplo, auxiliassem na distribuição da ceia do Senhor?