A. A natureza da igreja

29-10-2011 17:52

1. Definição.

A igreja é a comunidade de todos os cristãos de todos os tempos. Essa definição compreende que a igreja é feita de todos os verdadeiramente salvos. Paulo afirma: “Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela” (Ef 5.25). Aqui o termo “a igreja” é usado para referir-se a todos aqueles pelos quais Cristo morreu para redimir, todos os salvos pela morte de Cristo. Isso, porém, inclui todos os verdadeiros cristãos de todos os tempos, tanto os salvos do Novo como os do Antigo Testamento. O plano de Deus para a igreja é tão grande que ele exaltou Cristo a uma posição de suprema autoridade por amor à igreja: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23).

2. A igreja é invisível, ainda que visível.

Em sua realidade verdadeiramente espiritual como a comunidade de todos os cristãos genuínos, a igreja é invisível. Isso se dá porque não podemos ver a condição espiritual do coração de ninguém. Podemos ver os que freqüentam a igreja e perceber sinais externos de uma mudança espiritual interior, mas não podemos de fato ver o coração das pessoas nem enxergar o estado espiritual em que se encontram – algo que só Deus pode fazer. Foi por isso que Paulo afirmou: “O Senhor conhece os que lhe pertencem” (2Tm 2.19). Mesmo em nossas igrejas e em nossa vizinhança só Deus sabe, com toda a certeza e sem errar, quem são os verdadeiros cristãos. Falando da igreja como invisível, o autor de Hebreus fala da “assembléia (literalmente, “igreja”) dos primogênitos arrolados no céu” (Hb 12.23) e diz que os cristãos do presente unem-se àquela assembléia em adoração.

3. A igreja é local e universal.

No Novo Testamento a palavra “igreja” pode ser aplicada a um grupo de cristãos de qualquer tamanho, desde um pequeno grupo que se reúne sempre em uma residência até o grupo de todos os cristãos na igreja universal. A igreja numa casa é chamada “igreja” em Romanos 16.5 (“saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles”) e 1Coríntios 16.19 (“No Senhor, muito vos saúdam Áqüila e Priscila e, bem assim, a igreja que está na casa deles”.) A igreja de uma cidade inteira é também chamada “igreja” (1Co 1.2; 2Co 1.1 e 1Ts 1.1). A igreja de determinada região é chamada “igreja” em Atos 9.31: “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria.” Finalmente, a igreja do mundo inteiro pode ser chamada “a igreja”. Paulo afirma: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25)”, e diz: “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres...” (1Co 12.28). Nesse último versículo, a menção de “apóstolos”, os quais não foram dados a nenhuma igreja em particular, garante que a referência seja à igreja universal.

4. Metáforas da igreja.

Para ajudar-nos a entender a natureza da igreja, as Escrituras usam uma ampla variedade de metáforas e imagens que descrevem a igreja. Há diversas imagens de família: por exemplo, Paulo vê a igreja como uma família quando diz a Timóteo que agisse como se todos os membros da igreja fossem membros de uma família maior: “Não repreendas ao homem idoso; antes, exorta-o como a pai; aos moços, como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza” (1Tm 5.1-2). Deus é o nosso pai celestial (Ef 3.14), e nós somos seus filhos e suas filhas, pois Deus nos diz: “Serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso” (2Co 6.18). Somos, portanto, irmãos e irmãs uns dos outros na família de Deus (Mt 12.49-50; 1Jo 3.14-18). Uma metáfora de família um pouco diferente é vista quando Paulo refere-se à igreja como a noiva de Cristo. Ele diz que o relacionamento entre marido e mulher “refere-se a Cristo e à igreja” (Ef 5.32) e afirma que traz à tona o noivado entre Cristo e a igreja de Corinto e que isso se assemelha a um noivado entre uma noiva e seu futuro marido: “Visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo” (2Co 11.2) – aqui Paulo está olhando para a época da volta de Cristo como a ocasião quando a igreja será apresentada a ele como noiva.

5. A igreja e Israel.

Entre os protestantes evangélicos tem havido diferença de posição sobre a questão do relacionamento entre Israel e a igreja. Essa questão foi trazida à tona como proeminente pelos que defendem um sistema teológico “dispensacionalista”. A mais extensa teologia sistemática escrita por um dispensacionalista, a Systematic Theology de Lewis Sperry Chafer, destaca muitos aspectos distintos entre Israel e a igreja, e até mesmo entre o Israel fiel do Antigo Testamento e a igreja do Novo Testamento. Chafer argumenta que Deus tem dois planos distintos para dois diferentes grupos de pessoas que ele redimiu: os propósitos e as promessas de Deus para Israel são bênçãos terrenais e serão cumpridos nesse mundo em algum tempo no futuro. Por outro lado, os propósitos e as promessas de Deus para a igreja são bênçãos celestiais, as quais serão cumpridas no céu. Essa distinção entre os dois diferentes grupos que Deus salva será vista especialmente no milênio, conforme Chafer, pois naquela ocasião Israel reinará na terra como povo de Deus e desfrutará o cumprimento das promessas do Antigo Testamento, mas a igreja já terá sido levada para o céu na ocasião da volta secreta de Cristo para os seus santos (“o arrebatamento”). Conforme essa posição, a igreja não começou antes do Pentecostes (At 2). E não é correto pensar nos salvos do Antigo Testamento com os do Novo Testamento como partes de uma igreja.

6. A igreja e o reino de Deus.

Qual é o relacionamento entre a igreja e o reino de Deus? As diferenças foram bem resumidas por George Ladd:

O reino é primeiramente o governo dinâmico ou o domínio real de Deus e, derivando dessa idéia, a esfera na qual o domínio é experimentado. Na linguagem bíblica, o reino não é identificado com os seus súditos. Eles são o povo do domínio de Deus que adentram o reino, nele vivem, e por ele são governados. A igreja é a comunidade do reino, mas nunca o reino em si. Os discípulos de Jesus pertencem ao reino assim como o reino pertence a eles; todavia, eles não são o reino. O reino é o domínio de Deus; a igreja é uma sociedade de homens.

Ladd prossegue até resumir cinco aspectos específicos do relacionamento entre o reino e a igreja: (1) A igreja não é o reino (pois Jesus e os primeiros cristãos pregaram que o reino de Deus estava próximo e não que a igreja estava próxima; eles pregaram as boas novas do reino e não as boas novas da igreja: At 8.12; 19.8; 20.25; 28.23, 31). (2) O reino cria a igreja (porque quando as pessoas entram no reino de Deus elas unem-se a uma comunhão humana da igreja). (3) A igreja testemunha do reino (pois Jesus disse: “E será pregado esse evangelho do reino por todo o mundo”, Mt 24.14). (4) A igreja é o instrumento do reino (porque o Espírito Santo, manifestando o poder do reino, age por meio dos discípulos para curar os enfermos e expulsar demônios, conforme fez no ministério de Jesus: Mt 10.8; Lc 10.17). (5) A igreja é a guardiã do reino (porque à igreja foram dadas as chaves do reino dos céus: Mt 16.19).

 

B. As características distintivas da igreja

1. Existem igrejas verdadeiras e falsas igrejas.

O que faz de uma igreja uma igreja? O que é necessário para existir uma igreja? Pode um grupo que se diz cristão tornar-se tão diferente do que deve ser uma igreja que tal grupo não deva mais ser chamado igreja?

Nos primeiros séculos da igreja cristã, houve pouca polêmica sobre o que era uma verdadeira igreja. Havia apenas uma igreja em todo o mundo, a igreja “visível” espalhada em todo o mundo, que era, naturalmente, a verdadeira igreja. Essa igreja tinha bispos, clérigos locais e templos que todos podiam ver. Qualquer herege que fosse achado em algum sério erro doutrinário era simplesmente excluído da igreja.

2. Igrejas falsas e igrejas verdadeiras hoje.

Em vista da questão proposta durante a Reforma, o que dizer da Igreja Católica Romana hoje? É uma verdadeira igreja? Aqui parece que não podemos simplesmente tomar uma decisão com respeito à Igreja Católica Romana como um todo, pelo fato de sua grande diversidade. Perguntar se a Igreja Católica Romana é uma igreja verdadeira ou falsa hoje é como perguntar se as igrejas protestantes de hoje são falsas ou verdadeiras. Há uma grande variedade delas. Algumas paróquias certamente não possuem as duas características: não há pregação pura da Palavra, e a mensagem de salvação somente pela fé em Cristo não é conhecida nem recebida pelo povo na paróquia. A participação nos sacramentos é vista como uma “obra” que pode alcançar mérito para com Deus. Um grupo como esse não é uma verdadeira igreja cristã.

 

C. Os propósitos da igreja

Podemos entender os propósitos da igreja em termos de ministério com relação a Deus, aos cristãos e ao mundo.

1. Ministério com relação a Deus: adorar.

 No relacionamento com Deus o propósito da igreja é adorá-lo. Paulo ordena à igreja de Colossos que louve a Deus “com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão no coração” (Cl 3.16). Deus nos destinou e nos escolheu em Cristo “para sermos para louvor da sua glória” (Ef 1.12). A adoração na igreja não é simplesmente uma preparação para algo mais. Ela está em si mesma cumprindo o principal propósito da igreja com referência ao seu Senhor. Essa é a razão por que Paulo, depois de nos advertir de que devemos “remir o tempo”, acrescenta o mandamento de sermos cheios do Espírito e de estarmos “entoando e louvando de coração ao Senhor” (Ef 5.16-19).

2. Ministério com relação aos cristãos: edificar.

De acordo com as Escrituras, a igreja tem a obrigação de nutrir aqueles que já são cristãos e edificá-los à maturidade na fé. Paulo disse que seu próprio alvo não era apenas levar pessoas à fé salvífica inicial, mas sim “apresentar todo homem perfeito (maduro) em Cristo” (Cl 1.28). E ele escreveu à igreja de Éfeso que Deus havia concedido à igreja pessoas com dons “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.12-13). É evidentemente contrário ao modelo do Novo Testamento pensar que o nosso único alvo para com as pessoas é levá-las à fé salvífica inicial. Nosso alvo como igreja deve ser apresentar a Deus todo cristão “perfeito (maduro) em Cristo” (Cl 1.28).

3. Ministério com relação ao mundo: evangelização e misericórdia.

Jesus disse aos seus seguidores que eles deveriam “fazer discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). Essa obra evangelística de declarar o evangelho é o ministério principal da igreja com relação ao mundo.

Todavia, acompanhando a obra de evangelização há também o ministério de misericórdia, que inclui cuidado dos pobres e dos necessitados em nome do Senhor. Embora a ênfase do Novo Testamento esteja na ajuda material para os que fazem parte da igreja (At 11.29; 2Co 8.4; 1Jo 3.17), há ainda uma afirmação de que é correto ajudar os descrentes ainda que eles não respondam com gratidão nem aceitem a mensagem do evangelho. Jesus nos ensina:

Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai (Lc 6.35-36).

A questão central na explicação dada por Jesus é que devemos imitar a Deus, sendo bondosos para os que são ingratos e também egoístas. Além do mais, temos o exemplo de Jesus, que não tentou curar apenas os que o aceitaram como Messias. Em vez disso, quando grandes multidões o procuravam, “ele os curava, impondo as mãos sobre cada um” (Lc 4.40). Isso deve incentivar-nos a executar atos de bondade, a orar pela cura e por outras necessidades, tanto na vida de cristãos como de descrentes.

4. Manter esses propósitos em equilíbrio.

Uma vez relacionados esses propósitos para a igreja, alguém pode perguntar qual deles é o mais importante? Ou alguém mais pode perguntar se podemos negligenciar um desses três como menos importante do que os outros.

A isso devemos responder que os três propósitos da igreja foram ordenados pelo Senhor nas Escrituras; portanto, os três são importantes e nenhum deles pode ser negligenciado. De fato, uma igreja forte terá ministérios eficazes nas três áreas. Devemos acautelar-nos de quaisquer tentativas de reduzir o propósito da igreja a apenas um desses três e de dizer que um ou outro deve ser a nossa preocupação principal. De fato, tais tentativas de tornar um desses propósitos o principal sempre resultará em negligência dos outros dois.