A União com Cristo

28-10-2011 14:22

Embora já tenhamos concluído o nosso estudo dos passos da aplicação da redenção, há outro tema tantas vezes mencionado nas Escrituras e tão amplo na sua aplicação prática que merece tratamento separado aqui. Trata-se do conceito da união com Cristo. Como veremos abaixo, todo aspecto do relacionamento de Deus com os salvos está de certo modo ligado ao nosso relacionamento com Cristo. Dos desígnios divinos na eternidade passada, antes da criação do mundo, à nossa comunhão com Deus no céu na eternidade futura, incluindo ainda cada aspecto do nosso relacionamento com Deus nesta vida — tudo ocorreu e ocorre em união com Cristo. Portanto, em certo sentido, todo o estudo da aplicação da redenção poderia ser incluído neste tema. Porém, neste capítulo podemos apenas resumir a incrível riqueza do conceito bíblico de união com Cristo.

 

A. Estamos em Cristo

A expressão “em Cristo” não tem um único sentido, mas abarca várias relações, como se vê abaixo.

1. No plano eterno de Deus.

Efésios 1.4 nos diz que Deus nos escolheu em Cristo “antes da fundação do mundo”. Foi “nele” (em Cristo) que fomos predestinados “para louvor da sua glória” (v. 1.11-12). Mais tarde ele “nos salvou e nos chamou” por causa da “sua própria determinação” e por causa também da graça que nos deu “em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9).

2. Durante a vida de Cristo na terra.

Ao longo de toda a vida de Cristo na terra, desde o momento do seu nascimento até a hora da sua ascensão ao céu, Deus nos concebeu vivendo “em Cristo”. Ou seja, tudo o que Cristo fez como nosso representante, Deus contou como sendo algo que também nós fizemos. É claro que os salvos não estavam conscientemente presentes em Cristo, pois a maior parte deles nem sequer existia ainda quando Cristo estava na terra. Tampouco estavam os salvos presentes em Cristo de algum modo misterioso, espiritual (como se, por exemplo, as almas de milhares de crentes estivessem de algum modo presentes no corpo de Cristo durante a sua vida na terra). Antes, os crentes estavam presentes em Cristo apenas nos pensamentos de Deus, que nos concebeu passando por tudo aquilo que Cristo passou, pois ele era o nosso representante.

3. Durante a nossa vida hoje.

Uma vez que nascemos e existimos como pessoas reais no mundo, a nossa união com Cristo já não pode ser algo que exista só na mente divina. É preciso também que sejamos levados a um relacionamento efetivo com Cristo, por meio do qual os benefícios da salvação possam ser realizados em nós pelo Espírito Santo. A riqueza da nossa vida atual em Cristo pode ser vista em duas perspectivas ligeiramente distintas:

1. Morremos e ressuscitamos com Cristo.

2. Temos nova vida em Cristo.

3. Todos os nossos atos podem ser realizados em Cristo.

4. Todos os cristãos juntos formam um único corpo em Cristo.

a. Morrer e ressuscitar com Cristo. A morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus agora exercem efeitos reais sobre nós. “[Fostes] sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2.12). Aqui as referências de Paulo ao batismo e à fé sugerem que a nossa morte e ressurreição com Cristo ocorrem nesta vida mesmo, no momento em que nos tornamos cristãos.

b. Nova vida em Cristo. Esses últimos versículos sugerem uma segunda perspectiva do fato de existirmos “em Cristo”. Podemos pensar não só na obra redentora que Cristo realizou no passado, mas também na sua vida presente no céu, no fato de ele possuir todos os recursos espirituais de que precisamos para viver a vida cristã. Como toda bênção espiritual foi conquistada por ele e lhe pertence, o Novo Testamento diz que essas bênçãos estão “nele”. Assim, só estão disponíveis para os que estão “em Cristo”, e se estamos em Cristo, essas bênçãos são nossas.

c. Todos os nossos atos podem ser realizados em Cristo. Essas mudanças analisadas acima, que acontecem na vida de cada cristão, vêm acompanhadas de uma mudança radical na esfera em que vivemos. Tornar-se cristão é entrar na novidade do porvir e sentir até certo ponto os novos poderes do reino de Deus afetando cada aspecto da nossa vida. Estar “em Cristo” é estar no novo reino regido por Cristo.

d. Um só corpo em Cristo. Não estamos simplesmente em Cristo como pessoas isoladas. Como Cristo é o cabeça do corpo, que é a igreja (Ef 5.23), todos os que estão em união com Cristo estão também ligados uns aos outros no corpo de Cristo. Essa ligação nos faz “um só corpo em Cristo e membros uns dos outros” (Rm 12.5; 1Co 10.17; 12.12-27). Assim, “se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1Co 12.26). Os elos de comunhão são tão fortes que os cristãos podem se casar só “no Senhor” (1Co 7.39). Nesse corpo de Cristo desaparecem as antigas hostilidades, ruem as divisões pecaminosas entre as pessoas, e os critérios terrenos de posição social não valem mais, pois “não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28; cf. Ef 2.13-22).

 

B. Cristo está em nós

Jesus falou de um segundo tipo de relação quando disse: “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto” (Jo 15.5). Não só é verdade que estamos em Cristo; ele também está em nós, para nos dar força para viver a vida cristã. “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.19-20). O fator que determina se alguém é cristão ou não é se Cristo está nele (Rm 8.10; 2Co 13.5; Ap 3.20). O sábio plano divino, oculto como mistério por gerações, era salvar tanto os gentios como os judeus. Portanto, Paulo diz aos seus leitores gentios que o mistério de Deus é “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.27).

 

C. Somos semelhantes a Cristo

Um terceiro aspecto da união com Cristo é a imitação dele. “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1). João exorta: “Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” (1Jo 2.6). Portanto a união com Cristo implica a imitação de Cristo. A nossa vida deve assim espelhar a vida dele, para que lhe rendamos honra em tudo o que façamos (Fp 1.20).

 

D. Estamos com Cristo

1. Comunhão pessoal com Cristo.

Outro aspecto da união com Cristo diz respeito à nossa comunhão pessoal com ele. Pouco importa se dizemos que estamos com Cristo ou que Cristo está conosco, pois ambas as frases representam a mesma verdade. Cristo prometeu: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20) e “Estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Convém lembrar novamente que, como o corpo humano de Jesus ascendeu ao céu (Jo 16.7; 17.11; At 1.9-11), esses versículos falam necessariamente da sua natureza divina presente conosco. Porém é assim mesmo uma presença bastante pessoal, na qual cooperamos com Cristo (2Co 6.1), o conhecemos (Fp 3.8, 10), somos consolados  por ele (2Ts 2.16-17), ensinados por ele (Mt 11.29) e vivemos toda a nossa vida na sua presença (2Co 2.10; 1Tm 5.21; 6.13-14; 2Tm 4.1). Tornar-se cristão é ser chamado “à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (1Co 1.9). Porém essa comunhão pode variar de intensidade, pois a bênção de Paulo aos cristãos — “O Senhor seja com todos vós” (2Ts 3.16; cf. 2Tm 4.22) — só pode expressar a esperança de comunhão ainda mais íntima com Cristo e de uma consciência mais profunda da sua presença.

2. A união com o Pai e com o Espírito Santo.

Esse último versículo sugere um aspecto final da união com Cristo. Como estamos em união com Cristo nessas várias relações, também somos levados à união com o Pai e com o Espírito Santo. Estamos no Pai (Jo 17.21; 1Ts 1.1; 2Ts 1.1; 1Jo 2.24; 4.15-16; 5.20) e no Espírito Santo (Rm 8.9; 1Co 3.16; 6.19; 2Tm 1.14). O Pai está em nós (Jo 14.23) e o Espírito Santo está em nós (Rm 8.9-11). Somos semelhantes ao Pai (Mt 5.44-45, 48; Ef 4.32; Cl 3.10; 1Pe 1.15-16) e semelhantes ao Espírito Santo (Rm 8.4-6; Gl 5.22-23; Jo 16.13). Temos comunhão com o Pai (1Jo 1.3; Mt 6.9; 2Co 6.16-18) e com o Espírito Santo (Rm 8.16; At 15.28; 2Co 13.14; Ef 4.30).

Essas outras relações não se confundem, porém, num êxtase indistinto e místico. Agora como na eternidade nos relacionamos com o Pai segundo o seu papel único de nosso Pai celeste; com o Filho segundo o seu papel único de nosso Salvador e Senhor; e com o Espírito Santo segundo o seu papel único de Espírito que nos fortalece e continua-mente nos dispensa todos os benefícios da salvação.