A NECESSIDADE DA HERMENÊUTICA

30-01-2011 23:59

“Quem precisa de hermenêutica” é o título de um texto de Moisés Silva contido no livro “introdução à interpretação bíblica, no qual ele começa conceituando o termo “hermenêutica”. Dessa forma, Silva (2009) considera que o significado do termo hermenêutica é relativamente simples e define-o como sendo “a disciplina que lida com os princípios da interpretação”. Esse autor salienta o fato que de alguns escritores denominam essa disciplina de arte da interpretação ou ciência da interpretação, o que para ele pode ser deixado de lado por ser diferenças de perspectivas por ser o interesse básico da hermenêutica claro e suficiente. No entanto, Moisés ressalta que na maioria das vezes em que o termo é utilizado os escritores têm em mente a interpretação bíblica. Assim, ele propõe a indagação, coerente com o título do texto, perguntando o porque da necessidade de tal disciplina para a leitura da bíblia contrapondo o exemplo da não existência de aula para saber como interpretar um jornal e nem ao menos propostas de cursos no colégios sobre hermenêutica da conversação. Assim Moisés entabula com veemência a questão da necessidade da hermenêutica antes de passar a explicar a mesma culminando literalmente na pergunta:

Isso é uma realidade até com respeito a cursos sobre Shakespeare ou Homero, que certamente tratam de interpretação da literatura, mas em que nenhum pré-requisito de hermenêutica aparece. Por que então somos informados subitamente em nossa instrução acadêmica que precisamos nos tornar hábeis em uma ciência de som exótico, se queremos entender a Bíblia? (SILVA, 2009).

Respondendo a tal questão, Moisés evidencia a possibilidade da resposta estar no fato de que a Bíblia é um livro divino o qual exigiria um treinamento especial para sua compreensão. Mas, ele logo conclui que essa solução não satisfaz citando, no seu dizer, um estudioso católico romano ao declarar que “se alguém é capaz de falar de maneira absolutamente clara e tornar-se compreensível com eficácia irresistível, esse tal é Deus; portanto se há alguma palavra que poderia não exigir uma hermenêutica, essa seria a palavra divina. (SCHOKEL apud Silva, 2009). Acrescenta ainda, Moisés, que por essa razão os protestantes têm sempre enfatizado a doutrina da perspicuidade ou clareza das Escrituras. Essa doutrina significando, explicando o autor, “que a Bíblia em si nos diz que o pré-requisito essencial para entender as coisas de Deus é ter o Espírito de Deus (1Co 2.11), e que o cristão, tendo recebido a unção do Espírito, não precisa nem mesmo de um professor (1Jo 2.27)”. (SILVA, 2009).

Dessa forma, Moisés (2009) introduz sua abordagem proposta em tal texto respondendo a indagação sobre a necessidade da hermenêutica na leitura da bíblia concluindo que na realidade a necessidade da hermenêutica não está basicamente no fato da bíblia ser um livro divino, mas porque, além de divino é humano. Assim, ele apela para o reconhecimento da inerência do potencial para uma má interpretação o qual está sempre presente pela presença da linguagem humana a qual é por sua própria natureza grandemente equívoca, ou seja, capaz de ser compreendida em mais de uma forma, segundo Moisés Silva (2009). Esse autor, reintera então, a necessidade da hermenêutica para textos além da Bíblia e até mesmo para conversações triviais e até mesmo acontecimentos não-linguísticos.

 Diante de tal inserção da hermenêutica, Moisés (2009) levanta uma indagação por meio de um exemplo contido em duas perguntas: “Por que não nos foi exigido estudar hermenêutica no segundo grau? Por que é que, apesar dessa omissão em nossa educação, quase sempre compreendemos o que nosso próximo nos diz?”. Respondendo a tais questões ele diz que se aprende hermenêutica durante toda a vida, desde o nascimento. Mas Moisés adverte que tal prática diária de interpretação não é tão simples assim como se pode pensar. Esse autor continua explicando dizendo que essa prática exige “um processo bastante complexo (ainda que geralmente inconsciente) que se concentra na linguagem e na História, usando ambos os termos num sentido bastante amplo.” (MOISÉS, 2009).

Concluindo sua linha de raciocínio desenvolvida no texto visando a responder sobre a necessidade da hermenêutica, Moisés conclui com palavras explícitas sobre a inerência do processo interpretativo na vida e a necessidade da hermenêutica à medida que a linguagem e a história são desconhecidas.

Obviamente, nossa compreensão é reduzida à medida que a linguagem ou os fatos que estão sendo interpretados são desconhecidos para nós. Se um advogado usa linguagem técnica legal quando procura iniciar uma conversa com um estranho no metrô, dificilmente se pode esperar que haja muita compreensão. De maneira semelhante, uma pessoa que não acompanhou os desenvolvimentos do governo americano, por um período extenso de tempo, não será capaz de compreender um editorial de um jornal, ou até mesmo caricaturas políticas. (MOISÉS, 2009).

Augusto Nicodemos, pastor presbiteriano, cita também, em seu livro “a bíblia e seus intérpretes”, questão similar à mencionada por Moisés ao falar sobre o processo interpretativo inerente, ainda que inconsciente, até mesmo na leitura de um jornal. Moisés, ao questionar a necessidade da hermenêutica exemplifica com o fato de não se ter aula sobre como interpretar um jornal para salientar esse processo interpretativo constante e que se há o conhecimento da linguagem e dos fatos diminui a necessidade da disciplina hermenêutica. Sendo o contrário também verdadeiro.

 Assim, o pastor Nicodemos, quer reiterar, similarmente a Moisés, que “não existe compreensão de um texto sem que haja interpretação, mesmo que esta leitura seja do jornal e o processo interpretativo seja inconsciente”. Deixa claro que nem todos se apercebem do fato de que cada leitura de um texto envolve um processo interpretativo do mesmo e que sendo a Bíblia um texto, não foge a esta regra. (LOPES, 2004, P. 21).

 Para Nicodemos (2004) a Bíblia como palavra de Deus deve ser lida como nenhum outro livro, mas como foi escrita por homens ela deve ser interpretada como qualquer outro livro. O pastor esclarece que pelo fato de a Bíblia estar distante em diversos aspectos, faz com que a leitura da mesma, hoje, exija um esforço consciente de interpretação, ressaltando o pastor, a diferença da leitura que se faz da revista Veja. Ele fala de um esforço consciente pela ausência de conhecimento da linguagem e dos fatos, como Moisés, observando a diferença do processo interpretativo da leitura de uma revista atual, o qual é inconsciente pelo conhecimento da linguagem e dos fatos.

 Nicodemos (2004, p.23) fala sobre a falta de consideração por um estudo mais sério tendo-o como desnecessário e mesmo como uma barreira à espiritualidade e ao crescimento da igreja, pois as controvérsias e polêmicas no meio dos intelectuais onde se estuda a Bíblia acabam por desanimar muitas pessoas. Ele admite existir “muito academicismo e intelectualismo árido e infrutífero em muitos círculos acadêmicos ditos evangélicos”.

 No entanto, esse pastor presbiteriano é categórico em afirmar que rejeitar essas coisas não vai resolver o problema pelo fato de se estar diante de um texto, distanciado desse tempo, escrito em outras línguas e que precisa ser conscientemente interpretado para ser entendido. Diante disso, Nicodemos salienta a fala de alguns quando dizem para deixar de lado essas questões e simplesmente ler a Bíblia como ela é o que para ele tal abordagem não é possível por não existir leitura e entendimento de um texto sem que haja interpretação mesmo que ela se processe de forma inconsciente. Assim, o pastor Nicodemos, ressalta claramente que com relação à Bíblia “há aspectos de sua natureza que tornam indispensável um esforço consciente para interpretá-la”. (NICODEMOS, 2004, p. 23).

 O primeiro, desses aspectos citado por Augusto (2004, p. 23), é o fato de que “a Bíblia não caiu pronta do céu, mas que foi escrita por diferentes pessoas em diferentes épocas, línguas e lugares”, o que segundo ele é chamado por alguns estudiosos de distanciamento e que Augusto menciona também como fenômeno do distanciamento.

 Nicodemos (2004) cita, então, cinco distanciamentos dentro do aspecto da análise da Bíblia como livro humano a começar pelo que denomina de distanciamento temporal. Nesse aspecto ele considera que se está hoje separado temporalmente da Bíblia em dois milênios e que essa “distancia temporal, num mundo em constantes mudanças, faz com que a maneira de encarar o mundo, os aspectos culturais e lingüísticos dos escritos da Bíblia se percam no passado distante”. Ressalta, assim, que como qualquer documento antigo, a Bíblia precisa ser lida considerando tal fato. Para Nicodemos a história da interpretação das Escrituras mostra como desde cedo o seu leitor procura condições para transpor esse abismo temporal.

 Outro é o distanciamento contextual de que fala Nicodemos (2004, p. 24). Explica que “os livros da Bíblia foram escritos para atender a determinadas situações que já se perderam no passado distante” e por isso considera que para se entender melhor a mensagem é preciso recuperar o contexto em que os livros foram escritos. Acrescenta, Nicodemos (2004) que a hermenêutica bíblica historicamente sempre buscou transpor as dificuldades criadas pela distancia contextual.

 O distanciamento cultural é abordado por Nicodemos (2004, p.24) no qual salienta que o mundo em que os escritores da Bíblia viveram já não existe, “está no passado distante com suas características, cosmovisões, costumes, tradições e crenças”.  Lembra que a mensagem das Escrituras foi registrada numa determinada cultura, da qual preservou traços, considerando que “os intérpretes da Bíblia devem levar em conta o jeito de escrever daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar as verdades, para poder transpor a distancia cultural”.

 No distanciamento lingüístico, Nicodemos (2004, p. 25) aborda o fato de que as línguas em que a Bíblia foi escrita já não existem, pois não se fala mais o hebraico, o grego e o aramaico bíblico nos dias de hoje. Assim exemplifica citando que “o conhecimento do paralelismo hebraico certamente ajudou alguns intérpretes da Bíblia através da história a entender os salmos e os profetas melhor”.

Por último, Nicodemos fala do distanciamento autoral chamando a atenção para o fato de que se terá “uma compreensão mais exata da mensagem de alguns textos bíblicos reconhecidamente obscuros se os seus autores estivessem vivos”. Esse pastor diz não endossar o que alguns estudiosos afirmam ao dizerem que com a morte do autor perde-se a possibilidade de recuperar a intenção dele, pois diz acreditar que essa intenção sobrevive no que escreveram. Mas considera que “certamente a ausência do autor faz com que a interpretação de textos obscuros seja necessária”. (LOPES, 2004, p. 25).

Para Nicodemos, o distanciamento, portanto, exige dos leitores da Bíblia a tarefa de interpretá-la e que “uma maior exatidão e clareza acerca de todos os aspectos da mensagem bíblica não poderá ser alcançada sem interpretação consciente”. (LOPES, 2004, p. 25).

O pastor ainda nessa explanação faz considerações sobre o que chama de “entendendo o lado humano da Bíblia”. Assim ele cita os erros de copistas esclarecendo que ao se dizer que a Bíblia é verdadeira em tudo que afirma não se está negando que erros de copistas não se introduziram no longo processo de transmissão da mesma. Fala ainda do que chama de linguagem de acomodação explicando que não se está “dizendo que os autores bíblicos receberam conhecimento pleno e onisciente acerca do mundo, ao escreverem. Eles se expressam nos termos e dentro do conhecimento disponível naquela época, acomodando a verdade revelada em termos do que sabiam do mundo”. Por último, Augusto diz que as traduções da Bíblia não são inerrantes reconhecendo que em muitos casos os tradutores tiveram que tomar decisões relacionadas com a melhor maneira de verter um determinado termo ou expressão, e que tais decisões nem sempre foram as corretas”. (LOPES, 2004, p. 28-29).